Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O engano da abstenção

Alguns comentários recentes acerca da abstenção eleitoral que, a 5 de junho, atingiu o recorde de 41% preocupam-me. A suposta vitória da abstenção deve ser lida com muito cuidado e a ideia de “fracasso do sistema” ainda mais. O perigo mais evidente desse discurso é tomar a abstenção por aquilo que ela não é. Sabe-se que 11% dos abstencionistas já morreram ou emigraram, e por isso não foram votar. Por outro lado, existem aqueles que pode abster-se, sobretudo nas eleições presidenciais, porque acham que Portugal deveria ter um rei. Atribuir um único significado à atitude de cerca de quase 4 milhões de pessoas é arriscado. Nem que esse significado seja que essas pessoas não acreditam no sistema.

Por outro lado, não me custa aceitar que uma grande parte desses 4 milhões de eleitores deixou de crer no sistema. Mas quando se trata de tirar daí uma conclusão, eu começo a discordar, por exemplo, deste texto do Esquerda desalinhada, que alterna em propostas de reforma do sistema institucional nos seus aspetos imediatos e revoluções utópicas que ainda não são mais do que o nosso horizonte. A reforma do sistema ali proposta, embora me pareça interessante e traga benefícios para a esquerda, fica muito pela superfície da questão: não chega a ser um passo no caminho do horizonte proposto logo de seguida, do qual partilho, mas que, repito, não passa de um horizonte.

Outra forma de abordar o problema é não se contentar com o imediato – as regras jurídicas – e dando um passo além: a divisão do trabalho político que elas regulam, isto é, a relação entre eleitores e eleitos. Entender a dinâmica desta relação parece-me mais fecunda que imaginar alternativas legais mais justas a essas leis. A minha hipótese, exposta aqui, é que essa dinâmica assenta em dois processos complementares e simétricos.

  • Por parte dos políticos, o uso de eufemismos para esconder as consequências das suas políticas. Com ajuda dos jornalistas, como este vídeo mostra bem, a política é transformada em uma guerra de capelinhas entre partidos, da qual se exclui qualquer referência às suas consequências reais. É que aquele que for claro sobre quem são os beneficiados e os prejudicados das suas políticas, arrisca-se a perder votos entre os primeiros sem assegurar que será compensado pelos segundos. Em resultado, tudo se torna uma disputa de palavras sobre quem é competente e que é corrupto, substituindo diferenças ideológicas que, no final de conta, não deixam de existir.
  • Por parte dos eleitores, uma “incompetência” de perceber o debate político, uma vez que a forma como esse debate é feito priva-os da informação necessária para tal. Quando a sua vida melhora, os políticos são competentes; quando a sua vida piora, todos os políticos são corruptos – pois o binómio competência versus corrupção é o único instrumento que eles detêm para avaliar a política. E, quando a sua vida piora, a maioria da população acredita que os políticos são corruptos, abstém-se, vota em branco, apela a abstenção e ao voto em branco e, sobretudo, tem orgulho nessa ignorância política a que foi remetida.

É preciso deixar aqui claro que quando falo em ideia de que os políticos em geral são corruptos, estou a falar de algo diferente de corrupção propriamente dita. Dá-se o benefício da dúvida a um político concreto cujo julgamento corre em tribunal; mas não se duvida de que, em geral, os políticos são corruptos. (Já ouvi gente justificar as atitudes de Fátima Felgueiras). É essencial para que se entenda que o que está em causa não é uma leitura atenta da política, mas a ausência dela. Não querendo afirmar que não existe corrupção em Portugal, a atenção que se lhe dá resulta mais no afastamento dos cidadãos da política do que na sua aproximação.

Se estou certo, este fenómeno tem de ser levado em conta na discussão de um novo sistema político e eleitoral. Isto por duas razões. Primeiro, porque, à medida que os líderes destes movimentos vão passando do protesto à proposta vão sendo tomados por políticos e, logo, vistos como corruptos em busca de tachos. Segundo, porque devido ao que foi dito, é muito provável que estes líderes sejam pessoas que estão na fronteira da política, isto é, pessoas com conexões partidárias. Estes, porque sempre ligaram à política, se encontram mais capacitados para elaborar as propostas e as táticas que tal processo exige. Mas porque eles estão nessa situação de fronteira, facilmente serão vistos como políticos (portanto, corruptos em busca de tacho) pelos outros. Basta ver o que se passou depois da manifestação de 12 de Março para confirmar isto mesmo.

Em suma, não tomar em conta este fenómeno na defesa de modelos alternativos ao sistema eleitoral vigente ou, em alternativa, simplesmente exigir sem mais a refundação do sistema eleitoral, não só não acaba com a dicotomia entre eleitores e elegidos (pela segunda razão do parágrafo anterior), com pode estar condenada ao fracasso (pela primeira razão).

Este post deveria terminar por aqui, se não fosse de bom tom retirar conclusões práticas de tudo o que foi dito

É por tudo isto que venho defendendo desde o dia 6 de março (ver aqui também) a criação de uma sociedade civil disponível para entrar no contraditório com os políticos. Isto é, obrigar uma certa elite acomodada nos gabinetes das universidades, a vir para a praça pública dizer o que pensa das opções dos políticos (organizando tertúlias, cursos de extensão universitária, etc.). Uma elite que represente todos os quadrantes ideológicos e que diga o que pense, livre de floreados e eufemismos, porque está livre de ir a votos.

Falando mal e depressa: precisamos de um Medina Carreira de esquerda para dialogar com o outro de direita; vários Medinas Carrreiras de várias ideologias (e não o original e a fotocópia chamada José Gomes Ferreira), para fazer o debate que os políticos não fazem para não perder votos!!!

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8 de Junho de 2011 - Posted by | Sociedade portuguesa | , ,

2 comentários

  1. Gostei do seu trabalho, especialmente no que toca às ilações a tirar do mesmo. Partilho da sua opinião acerca do distanciamento consciente que muitos dos eleitores têm em relação à política e, consequentemente, à sua cota parte de responsabilidade que resulta na abstenção. Sou acérrimo defensor da participação cívica no debate, como muito bem defende. Mas, num país ainda preso à repressão e às inúmeras formas que esta assume, é seguro para mim, enquanto funcionário público e numa perspectiva profissional de presente e de futuro, debater a forma como a política é feita neste país a que chamo África do Norte?
    A corrupção e a fraude são os cancros da nossa sociedade. Em vez de serem severamente combatidos, são “cultivados” e alimentados por leis desadequadas e, no mínimo, de índoles questionáveis. Todos nós, pelo menos os interessados, sabem onde está o mal, quem é quem, quem fez o quê. É seguro para nós, sabendo que o amadorismo na política e especialmente na justiça não censura, denunciar estes factos ou comentá-los na praça pública? De facto, fazem falta muitos Medina Carreiras. Pessoas que não se sintam nem ameaçadas nem amordaçadas possam dar voz à nossa indignação. Faz falta coragem para separar o poder político do poder judicial. Faz falta proíbir a classe política de assumir cargos importantes em empresas que gravitam em torno do poder político. Mas o mal não está só na classe política, pois também faz falta informar os portugueses de que a economia paralela mata o país, de que quem não passa recibo é assassino por estar a matar Portugal, de que a “chico-espertice” bem portuguesa é crime. Se não denunciarmos estas situações, se nada fizermos para exterminar todas as práticas censuráveis que grasam por este país, então mais vale fecharmos as portas ou abandonarmos o barco.
    Neste momento, com quase 40 anos, não acredito em Portugal, não acredito nos Portugueses, não acredito na Democracia, não acredito no 24 de Abril. Hoje sei que Abril não significa Liberdade. Significa Libertação pois libertou a mais baixa escória política e gestora deste país. Libertou políticos para práticas que outrora não as poderiam ter – Soares que o diga!
    Hoje acredito que também eu daria um Salazar, pois se quisermos mudar não o fazemos da noite para o dia, tampouco temos tempos para esperar duas ou três gerações. Tinha mesmo de ser “à bruta”! – Perdoem-me o desabafo!

    Comentar por Evandro Sequeira | 14 de Junho de 2011

    • Olá Evandro.

      Bem-vindo. É sempre bom saber que somos lidos.

      Às vezes, diz S. Žižek, quando desconfiamos de alguma coisa devemos desconfiar de tudo. Se desconfiamos da política, devemos até desconfiar de que os políticos são corruptos. Acho esta desconfiança muito produtiva, porque nos leva à seguinte pergunta: será que a (nossa) ideia generalizada de que todos os políticos são corruptos deriva do facto da maioria dos políticos serem, de facto corruptos? A minha resposta pessoal é não. Se olharmos com honestidade e curiosidade para a realidade vemos algumas coisas interessantes. Preocupa-nos bastante o facto de que, em geral, os políticos são corruptos; mas elegemos Cavaco e Silva, acusado de corrupção, de bom grado. Não penso que os portugueses sejam estúpidos. Tem de haver uma explicação.

      Acredito que não é pela maioria dos políticos serem corruptos que acreditamos que, em geral, os políticos são corruptos. É porque acreditamos que em geral os políticos são corruptos que nem questionamos as acusações de corrupção que pesam sobe um político. Sem negar a existência de corrupção na política, esta tese obriga a buscar explicações para a ideia da corrupção generalizada na política fora da política propriamente dita. Tentem expor essa análise no post acima e apresentei-a aqui.

      Como disse no blog, a ideia generalizada de que os políticos são corruptos provém de duas dinâmicas simétricas e complementares, De um lado, os políticos tentando esconder as medidas que pretendem aplicar para segurar todos os votos possíveis. Expondo-se, eles perderiam votos naqueles que iriam perder com a sua política sem necessariamente os recuperarem nos seus beneficiários. Portanto, tudo de reduz a um “eu sou mais competente que ele”. Já tentei expor essa dinâmica aqui. Da parte dos eleitores, é preciso lembrar que não existem políticos incompetentes. O político não competente é o político corrupto. Então, se os políticos são avaliados de acordo com o binómio competência vs corrupção, em tempos de crise, todos os políticos parecem corruptos.

      Não quer dizer que não os haja; só acho que o problema da corrupção está sobrevalorizado. E essa sobrevalorização está a impedir as pessoas de interessarem-se por política. Como resultado, a ideia de que os políticos são corruptos é o que permite aos lobbies governar Portugal sem que os portugueses se importem muito com isso.

      Comentar por Jose Ferreira | 15 de Junho de 2011


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