Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Indignados ou a luta ideológica

Estes dias deparei com uma crítica do KKE (partido comunista grego) ao movimento dos indignados. O movimento dos indignados é um grupo de desconhecidos que se reclama porta-voz das manifestações que ocorrem na Grécia devido à intervenção do FMI. Ecoando um discurso que também se faz presente por cá, o grupo dos indignados culpa todos os políticos pela crise, incluindo neles os sindicatos e partidos de esquerda que marcam presença nas manifestações contra as medidas de austeridade impostas ao e pelo governo grego. Por isso o grupo dos indignados pede aos partidos e sindicatos que abandonem as ruas.

A leitura que me apraz fazer deste conflito entre os indignados e o KKE é puramente gramsciana. Trata-se de uma disputa para dar um sentido (no duplo sentido, enquanto significado e direção) aos protestos que ocorrem na Grécia. De um lado, o discurso ou programa moralista, dos indignados, que vê no movimento um movimento contra os políticos que, segundo o seu diagnóstico, são os culpados da crise. Do outro, um programa sócio-económico, que encontra as causas da crise na dinâmica da economia e pretendem defender os direitos laborais e os serviços públicos de um programa de austeridade à medida dos credores dos Estados.

Tenho defendido programa sócio-económico por três razões. A primeira é porque acredito que a crise se deve menos à corrupção que à dinâmica do capitalismo como já escrevi aqui e aqui. A segunda, porque um discurso moralista decapita o movimento dos seus líderes. A partir do momento em que os líderes começam, de facto, a liderar tornam-se políticos e por isso vistos como corruptos ou pelo menos alguém à procura de tacho. As críticas à proximidade dos dirigentes do M12M do Bloco de Esquerda estão aí para provar isso. A terceira razão, que decorre das anteriores, é que somente o projeto sócio-económico tem produzido iniciativas concretas, como são a Iniciativa de Lei Contra a Precariedade e o Pedido de Auditoria da Dívida.

Não obstante, merece reflexão que o discurso moralista aparece nos lugares mais improváveis como no grupo de Facebookianos que Apoiam a CDU. Não que os deputados da CDU não se preocupem com a corrupção; este vídeo demonstra o contrário. O que se passa é que a Comissão Política do PCP não embarca num discurso que em última análise tornam a luta de massas ineficaz, como faz o programa moralista. Mas, como disse aqui, quando as pessoas não têm informação para entender a política (porque os políticos trocaram o debate ideológico pelo marketing), e quando a sua qualidade de vida piora, a única razão que elas encontram para explicar isso é a incompetência, ou pior, a corrupção dos políticos.

Neste sentido, a disputa entre os discursos moralista e sócio-económico, se bem que ideológica, está longe de ser uma luta de classes – uma infiltração do pensamento pequeno-burguês na classe operária, como diria o velho marxismo. Trata-se, pelo contrário, dos efeitos da despolitização dos cidadãos comuns, concomitante com anos de prosperidade económica (1980-2000) e de aproximação ideológica dos partidos que se revezam no poder.

Em consequência, ver esta a disputa com tal em vez de procurar uma aproximação entre as duas tendências será um erro. Terá como último resultado a divisão do movimento. Ao contrário, é preciso encontrar pontos de agenda que entrelacem os dois discursos. Um ponto de agenda, potencial, é a crítica as sucessivas derrapagens das obras públicas que acabam por custar o triplo dos suposto pelo projeto. O segundo, igualmente potencial, é a aproximação ao movimento que luta pela reforma da Lei de Ordenamento do Território, cujos defeitos estão na base dos mais generalizados atos de corrupção em Portugal. Ambos mostram o entrelaçamento entre os políticos de direita e o poder económico que permitirá às massas aperceberem-se da dimensão de classe da crise económica.

Contudo, um senão. O sector da construção civil (que se tornará visível pela agenda proposta) está a perder peso político em Portugal, em benefício da banca, que sempre o teve, e do sector de exportação. Daí que a unidade do movimento não pode ser conquistada à custa da seleção de uma agenda que tem pouca atualidade. Por outras palavras, não se podem abandonar os pontos já estabelecidos de reestruturação da dívida e de defesa dos serviços públicos atualmente sobre ataque.

Enquanto concluo o post verifico que a mesma disputa ideológica apareceu em Madrid, como comenta de outro prisma Renato Teixeira. Os indignados espanhóis pediram as pessoas que deixassem as ideologias em casa. Felizmente qualquer definição séria de ideologia, como esta que eu uso aqui, joga a pretensão destes indignados no ridículo.

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26 de Junho de 2011 - Posted by | Ideologia, Portugal | , ,

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