Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

BE: o grande equivoco

Prometi a mim mesmo não falar sobre o debate interno do Bloco de Esquerda, com exceção do que afirmei logo a seguir às eleições. Decidi fazê-lo porque, da mesma maneira que não gosto de ler as postas de pescada que os bloquistas gostam de mandar sobre as decisões internas do PCP, me reservo a não comentar as decisões do BE. Contudo, a disputa interna do BE começa a ter consequências sobre toda a esquerda, o que não só autoriza como obriga o envolvimento de todos aqueles que não sendo militantes do BE, são de esquerda.

Falo desta alternativa de esquerda, que não é mais que re-apresentar aquilo que, como está aqui muito bem explicado, é a proposta política do Bloco de Esquerda. Esta “alternativa de esquerda”, portanto, – e até pelo momento em que surge – somente pode ser entendida como parte das disputas internas do BE neste clima pós-eleitoral. Contudo, esta estratégia começa a tentar arrastar atrás de si os movimentos populares apartidarios, desde o M12M (que, corretamente, já se afastou do processo) à CGTP.

(De passagem, permito-me a alguns comentários sobre este manifesto Por uma nova agenda sindical. Ele é irmão-gémeo desta “alternativa de esquerda”. Nenhuma necessidade de mudança palpável é apontada no manifesto. Somente a necessidade de “refundação” de uma qualquer coisa quem nem sequer é bem identificada. Nisso faz lembrar a necessidade de refundar o PS, de refundar o governo, de refundar Portugal e todas essas refundações que a direita faz continua- mente. Mudemos tudo para que nada mude! Autenticas voltas de 360 graus. A política ao seu pior nível).

Enfim, porque não sei exatamente onde a “alternativa de esquerda” começa e o Bloco de Esquerda acaba, vou limitar-me a criticar essa ideia de esquerda grande.

Eles propõem uma aliança PCP/BE/PS (com tudo o que isso significa de falta de respeito pelos militantes do PEV), cujo o programa pouco se discute. É merecido lembrar aqui que o PCP e o BE não tiveram dúvidas em votar junto ao PS, na Assembleia da República, em todos os pontos em que concordavam com o PS: como foi o caso do TGV e do legalização do casamento dos homossexuais. Mais, o PCP e o BE não tiveram problemas em votar ao lado do CDS/PP quando se propôs a limitação dos ordenadores dos gestores de empresas públicas. A ideia de esquerda grande inverte aquilo que seria lógico, a subordinação das alianças ao programa, exigindo exatamente o seu contrário: a subordinação programa às alianças.

O programa da esquerda grande é um grande favor que o BE faz ao PS. Esta ideia permite ao PS desculpar-se das suas medidas de direita por falta de apoio à sua esquerda. Se o PCP e o BE tivessem apoiado o PS, se a esquerda grande existisse, Sócrates poderia ter governado mais à esquerda – dizem alguns militantes do PS. A ideia de esquerda grande dá-lhes razão, obliterando que sempre que o PS propôs uma medida de esquerda, ela contou com o apoio do PCP e do BE.

A ideia de esquerda grande serve, ao mesmo tempo, muito bem ao BE. Consegue manter juntos os mais improváveis aliados. No BE confluem várias tendências que se resumem a duas: aqueles que querem aliar-se com o PS, e esquecer a existência do PCP; e aqueles que querem aliar-se ao PCP para lutar contra uma direita onde incluem o PS. O BE pôde saltar de uma aliança com o PS a propósito das eleições presidências para conversações com o PCP a propósito das eleições legislativas sem que isso, contraditório por natureza, contradissesse o seu programa. A ideia de esquerda grande é uma ideia suficientemente grande para caberem nela estas duas tendências contraditórias. Não estava de todo equivocado o Ângelo quando lhes chamou “bloco de elástico“.

Por isso, onde eles vêm uma esquerda grande eu só vejo um grande equivoco.

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29 de Junho de 2011 - Posted by | Partidos, Portugal | , ,

2 comentários

  1. BE pra mim…a meu ver é somente um partido politico que, não entendo muito bem porque, retira votos ao partido CDU … mas diz-se de esquerda. Não seria mais facil aliarce ao CDU também? Pois, porque os unicos partidos de esquerda em Portugal são o BE e o PCP. …Já agora, quando é que vamos passar esse entendimento ao povo? Quando é que vamos colocar o PS no seu devido lugar…eles são um partido de direita …é um lobo em pele de cordeiro!!! Apoiar medidas de qualquer partido no poder que tenha fundamentos sociais e que seja para apoiar as maiorias desfavorecidas é sempre bom mostra coerencia. De forma nenhuma deveriam os malitantes sentir algum desconforto. Oposição não precisa sempre ser contra …precisa ser coerente com aquilo que almeja para seu povo! Hanky

    Comentar por Hanky | 4 de Julho de 2011

    • Olá Hanky, creio que já te respondi no facebook, mas acho que vale a pena que fique aqui registado também. Como te disse, a esquerda e a direita, as classes sociais e classificações do género são mais ou menos como as classes de idade. Não se é velho aos 65 e ainda não se é aos 64; é-se velho a partir do momento em que os outros dizem “estás velho demais para isso” e a pessoa assume que de facto está. Isto leva a duas questões do ponto de vista analítico:

      A) A diferença – política, social [de classes], de idade, etc. – existe mesmo, mas a sua tradução em classes não está dada à partida. Assim como podemos falar em jovens e velhos; também podemos falar em crianças e adultos; ou crianças; jovens, adultos e velhos; etc. etc. Do mesmo modo, se fala de classe burguesa e classe operária; ou classe baixa, classe média e classe alta. Também se pode falar de esquerda e direita; ou de esquerda, centro esquerda, centro direita, e direita.

      Aqui repara em algo: as pessoas, os grupos e as organizações (os partidos, neste caso), são classificado segundo a1) vários critérios possíveis, tendo cada um desses critérios a2) várias escalas possíveis. A mim me preocupa mais conhecer a variedade de critérios e de escalas que optar por um.

      B) O uso de um critério e uma escala é produto de um interesse e de um ponto de vista. Como diz Leonardo Boff, “um ponto de vista é a vista desde um ponto”. Por outro lado, classificar, dizer “estás muito velho para isso” ou “anda lá, já és grande” têm consequências. Assim como dizer “aquele não passa de um capitalista”. Assim, o PS afirma que a direita só começa no PSD, de quem procura sempre distinguir-se. Pelo contrário, o PCP tenta meter PS, PSD e CDS no mesmo saco, obviamente para propor uma alternativa radical àquelas três propostas políticas próximas.

      Analiticamente, é menos interessante discutir qual dos dois têm razão (dimensão gnoseológica do discurso) do que os interesses que levam um a ver a mesma realidade de uma maneira e outro de outra (dimensão ideologia do discurso). Aliás porque, como digo aqui, é difícil dizer quem tem razão.

      É claro que quando passo da análise para a política tomo uma posição: escolho um critério e um sistema de classificação. Não perco tempo em fazer preâmbulos.

      Comentar por Jose Ferreira | 6 de Julho de 2011


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