Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

De liberal e de socialista…

De liberal e de socialista… todos temos um pouco. Talvez seja este o princípio de uma boa resposta ao artigo de opinião de Alberto Gonçalves, “Alguém viu por aí um governo liberal?“, publicado no DN no passado domingo. Escreve o comentador político

É verdade que entre as eleições e o anúncio surgiu um “inesperado” buraco de dois mil milhões na famosa consolidação orçamental, o que obrigava o Governo a escolher uma de duas hipóteses. Se fosse socialista, procederia ao roubo adicional dos contribuintes. Sendo liberal, no peculiar sentido que em Portugal se dá ao termo, procedeu ao roubo adicional dos contribuintes.

Slavoj Žižek bem avisava (numa conferência que tive a oportunidade de assistir): não deem aos neoliberais sequer o crédito de serem neoliberais; desconfiem de tudo o que possa vir deles, inclusive do facto de serem neoliberais. O corte no subsídio de natal e as trapalhadas acerca do BPN mostram o caráter deste governo: liberal para as famílias, socialista para as grandes empresas. Como toda a gente sabe, mesmo na maior austeridade, há sempre dinheiro para as grandes empresas (ver aqui também). Celso Furtado, que sempre viu longe, bem dizia que o capitalismo é a socialização do investimento e a privatização do lucro.

De facto, conheço poucos governos liberais a sério; e esses não são estão nos EUA nem na Alemanha, sempre prontos a ajudar a sua economia. O único país liberal onde vivi, liberal a sério onde o Estado assumia quase um cada um por si e deus por todos , foi a Guatemala pós-2003, onde o Estado não tem dinheiro para fazer política. Resultado: os assaltos à mão armada superam, em número de vítimas mortais por dia, a guerra civil da década de 1980. Governos liberais só existem na cabeça dos economistas, no discurso dos políticos quando impõem sacrifícios à população, e nos países onde não há dinheiro para haver sequer governo.

O meu desejo não é, portanto, um governo mais socialista que o de Passos Coelho. Só quero inverter a polaridade da situação. Se Passos Coelho é socialista para as empresas e liberal para o povo; eu me bato por um governo socialista para o povo e liberal para as empresas.

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6 de Julho de 2011 - Posted by | Economia, Ideologia | , ,

2 comentários

  1. Muito bom, Zé! A minha dúvida é: será que na armadilha da globalização é possível a qualquer governo ser socialista para as empresas? e se elas se puserem a andar levando ao desemprego os trabalhadores? matamos o doente com a cura… Não defendo que o povo seja tratado de forma liberal, mas pergunto-me sempre se as soluções serão as melhores a médio prazo, já nem digo longo. A Europa tem de assumir enfrentar o ataque ao Euro, tem de assumir isso para controlar de forma muito firme os emergentes emprestadores que olham para a a Europa com uma cupidez exacerbada. Claro que somos apanhados na voragem. Só não o seríamos se a dívida não tivesse crescido tanto para se ser socialista… ser socialista à custa do capital não pode produzir bons resultados…Como diria um nosso historiador: “quando a banca e o estado se aliam é o diabo que dita as regras”

    Comentar por lurdes | 6 de Julho de 2011

    • Olá Lurdes!

      Os especuladores são empresas europeias – bancos alemães e franceses, sobretudo. E quando alguns deles faliram, fora em Londres, Lisboa ou Washington, houve um socialismo para as empresas, para esses mesmos especuladores. E vai haver novamente! A reestruturação da dívida é inevitável e quanto mais tarde começar, mais difícil será de gerir. O BCP virará um novo BPN se a Grécia entrar em incumprimento, pois está bastante exposto à divida grega. Ou seja, para estes – que afinal são os especuladores – há dinheiro.

      Abraço.

      Comentar por Jose Ferreira | 6 de Julho de 2011


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