Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Evolução das condições objetivas

Na conjuntura atual, a classe trabalhadora deve ser agrupada em três subclasses:

1) Em primeiro lugar, os que mantiveram a luta nestes anos. De um lado, destacam-se os funcionários públicos; do outro os trabalhadores dos transportes (TAP, CP, Carris, …) . Entre os funcionários públicos sobressaem os trabalhadores da administração local  e os professores. Estes últimos devem ser opostos aos médicos que, em condição social equivalente (funcionários públicos com elevada formação), a sua luta passou menos pela constituição de um sindicato do que de um forte e eficaz lobby.

2) Em segundo lugar, os que chegam agora à luta. Tratam-se de jovens, licenciados ou com pós-graduação e desempregados ou com problemas no acesso ao emprego. Numa economia intensiva em trabalho como a portuguesa, a saída profissional destes jovens foi, tradicionalmente, o ensino. A redução abrupta do Estado que está a acorrer fecha-lhes esta porta. O resultado foram a Manifestação de 12 de Março e o Movimento Democracia Direta Já – ambos por fora dos sindicatos que organizam o primeiro grupo.

Se o sistema de classificação é determinado pelo estado de mobilização subjetiva da classe, então é necessário assumir que deste segundo grupo também fazem parte desempregados de longa duração com mais de 50 anos. A deslocalização de empresas intensivas em mão-de-obra (ex. calçado) deixou no desemprego famílias que dificilmente conseguirão outro emprego e ainda lhes falta 10 anos para obter reforma. As mobilizações deste têm acontecido somente na medida em que se juntam aos jovens ou aos sindicatos tradicionais.

3) Finalmente, aqueles que estão a ver deteriorar as suas condição, mas que não expressaram ainda politicamente o seu descontentamento. Falo dos trabalhadores da construção civil (sector muito dependente do Estado e das obras públicas) e dos pequenos e micro-empresários* e seus trabalhadores. Estes últimos têm sido vítimas do desaire de todos os outros: na medida em que as condições de vida dos trabalhadores se despenham, as pequenas e médias empresas deixam de ter clientes.

* Com certeza, muitos não concordarão em tratar os pequenos empresários e micro-empresários como membros da classe trabalhadora. Não obstante, eles são explorados ainda que não pela desapropriação dos meios de produção. Eles são explorados pela falta de controlo sobre as relações comerciais onde são inseridos. Por outro lado, a situação de crise empurra as suas empresas para a falência, isto é, torna-os trabalhadores.

O estudo das condições sociais destes grupos (nível de rendimento, modo de vida, problemas que enfrentam quotidianamente no trabalho e na família, etc.), sua relação sincrónica (o que os distingue uns dos outros) e diacrónica (como evoluiu nos últimos 30 anos) é fundamentar para entender a sua disposição (no sentido que lhe é dado pela sociologia de Pierre Bourdieu) destes trabalhadores para a luta contra o “ajustamento estrutural” que ocorre em Portugal e na Europa. Este tipo de análise é importante para afinar a luta que atualmente levam a cabo os sindicatos e os movimentos “espontâneos” com ajuda dos partidos à esquerda do PS.

Infelizmente, não terei tempo para levar este investimento a sério antes de janeiro do próximo ano.

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13 de Julho de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | ,

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