Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A inflação e a crise

Há dias li uma entrevista com Alberto Castro (economista da Universidade Católica) no Expresso Economia. Chamou-me a atenção para um coisa pouco discutida em Portugal e na UE: o problema da inflação. Sabe-se que ao menor sinal de inflação, o BCE sobe as taxas de juro para contê-la. “O BCE é um chato”, resume o economista da Católica.

A paranoia da inflação começou na década de 1980. Numa era em que o Estado controlava o sector financeiro, e promovia o investimento industrial, o dogma de manter a inflação muito perto do zero não existia. Na década de 1970, a inflação era tolerada em nome do crescimento económico.

A inflação é, antes de mais, “excesso” de consumo: a economia não consegue produzir tudo o que as pessoas querem consumir. O combate à inflação faz-se pelo aumento dos juros das dívidas. Quem tem empréstimos, reduz o consumo para pagar juros mais elevados. E, sobretudo, como as empresas investem a crédito, o aumento da taxa de juros, abranda a criação de emprego – logo, abranda o consumo.

Não obstante, a inflação também pode dever-se ao aumento dos custos de produção. Foi assim que o choque petrolífero de 1972/73 acelerou a inflação pré-existente. Isto colocou um problema à economia política: entrou-se numa era de inflação sem crescimento (até então impossível, na cabeça dos economistas). Por outro lado, os bancos, que se tornaram muito poderosos nesses anos, “perdem” dinheiro com a inflação. Na década de 1980, os Estados impuseram medidas drásticas de combate à inflação, a despeito do crescimento económico; medidas que tinham sido previamente testadas no Chile, pela ditadura de Pinochet. E de lá para cá a inflação é um monstro.

Somente no último ano, apareceram vozes discordantes, na China, nos EUA  e no Brasil. O resto do mundo, inclusive a Europa, continua militantemente a lutar contra a inflação.

É óbvio que, nas condições atuais de elevado desemprego e necessidade urgente de crescimento económico, combater a inflação é o último que Portugal – como outros países periféricos europeus – necessita. A “perda de valor” do dinheiro também daria uma contribuição, ainda que pequena, para facilitar o pagamento da dívida. Mas o Banco Central Europeu é alemão na sua genética e sempre que a economia “aquece” aumenta a taxa de juros.

Disto tudo uma lição: a político macro-económica que interessa à Alemanha não é a mesma que interessa aos outros países. A crise portuguesa deve-se a muitas razões. Mas uma fundamental é a perda de soberania económica. Portugal anda há 10 anos a viver com uma política económica desadequada – como se vê pelo exemplo que nos dá o combate à inflação.

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23 de Julho de 2011 - Posted by | Economia, Europa, Portugal | , , ,

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