Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Os indignados à Porta do Sol

Na curta exposição que Marx e Engels fazem sobre o desenvolvimento do proletariado, no Manifesto Comunista, eles parecem acreditar que as derrotas são momentos de aprendizagem da luta. É a lidar com as suas derrotas que o proletariado se conhece a si mesmo e, por consequência, a sua missão história de revolucionar as bases da sociedade. Tenho razões para duvidar desta ideia quando o tempo se alarga entre duas mobilizações. O conhecimento acumulado durante a crise de 1929 e os primeiros anos da década de 1930 já não está disponível. Perdeu-se em lutas dentro do sistema, por melhores salários, que aceitavam as bases de uma sociedade burguesa chamado o Estado de Bem-Estar. Mas entre o desalojo dos Indignados da Puerta del Sol e a sua “reconquista“, nos dois meses que separam estes dois eventos, o movimento dos jovens espanhóis parece ter crescido politicamente.

O movimento dos indignados, modificou-se muito. Desde logo, o lema “Não é uma crise, é que já não te quero” mostra que os indignados já perceberam que não se trata de uma situação conjuntural provocada por uma má gestão dos políticos e empresários atuais. Trata-se, isso sim, de um problema sistémico – ainda que a “chave-de-leitura” desse sistema possa ser confusa ou equivocada. Ao mesmo tempo, o périplo pelas pequenas cidades do país, que juntou meio milhar de pessoas, constitui uma inovação tática assinalável.

É claro que aquilo a que se chama sistema pode dar azo, ainda, a muitas contradições do movimento. O conflito entre uma conceção da luta como “cidadãos vs políticos” e a alternativa “trabalhadores vs capitalistas” permanece vigente no discurso dos manifestantes. Aqui, tenho de assinalar alguns aspetos que são tanto metodológicos como políticos. Como digo na advertência deste blog, continuo a defender que um fenómeno político se entende nas suas contradições e não na sua unidade. Obviamente, esta opção metodológica, tem um risco político: reforçar, ao dar visibilidade e protagonismo, as diferenças internas do movimento. Por outro lado, ignorar as tensões internas do movimento, por mais latentes que estejam, é – na minha opinião – aniquilar toda a possibilidade de o compreender. Olhar as suas tensões internas não só revela os fatores que tendem a dividir o movimento, como leva a reconhecer imediatamente aqueles que o mantêm unido.

Nesse sentido, a oposição entre o discurso moralista e o discurso socioeconómico, que está bem visível na Grécia, continua a servir-me de referencia para o que se passa na Grécia, em Portugal ou em Espanha. Mas, atualmente, é necessário acrescentar dois novos elementos. Um, que está implícito em muitos dos textos que escrevo aqui, é que esses discurso nunca aparecem puros, mas híbridos. Sendo assim, tal oposição é, antes de mais, puramente metodológica. Ela permite introduzir alguma positividade na análise do movimento. Qual é o peso relativo de cada discurso no movimento? Como é que os dois discursos se relacionam e como essa relação está a evoluir? Como se ordenam os vários grupos que compõem o movimento na linha imaginária cujos extremos são os dois discursos puros? A tensão está a reduzir-se ou a ampliar-se?

O outro elemento é político e constitui um afastamento de outras coisas que escrevi. Não se trata mais de defender um sobre o outro ponto de vista, mas de gerir essa contradição ou, se possível, resolvê-la. Mas é preciso assinalar que não se resolvem contradições quando se quer, nem sem imediatamente cair em outras, ainda que outras mais avançadas, isto é, que só se colocam a um movimento politicamente mais maduro. (Pode dizer-se que a maturidade de um movimento político pode avaliar-se pelo grau de dificuldade das contradições que se coloca, ainda que não haja modo de medir esse grau de dificuldade).

O anterior quer dizer na prática que, entre as duas chaves-de-leitura (“cidadãos vs políticos” e “trabalhadores vs empresários”), não se deve optar por uma mais aprofundar a compreensão de ambas – como, de algum modo está suposto aqui. É nesse sentido que tem ido as minhas reflexões e creio que este texto e este post foram felizes.

Finalmente, quero chamar a atenção para um outro aspeto do movimento dos Indignados. Na edição impressa do Publico de 24/07 é resumido um estudo encomendado pelo partido socialista espanhol (PSOE) sobre o grupo. (Sei também que Conselho de Segurança da Europa encomendou um estudo ao ISPA sobre o Movimento dos Acampados do Rossio). Estes estudos, por muito científicos que sejam, ao procurar enquadrar (definir, explicar) o movimento delimitam os objetivos a que pode propor-se. Do ponto de vista político, o modo como os jornalistas definem o movimento tem o mesmo efeito de “enquadrar” o movimento.

E isto acontece tanto quando os seus dirigentes aceitam tal classificação, como quando não. Porque mesmo não o aceitando, o movimento tem de definir-se em relação ao “enquadramento” que lhe é “proposto”. E, por outro lado, os outros atores – desde o governo ao comum cidadão – são igualmente influenciados por estes enquadramentos e é a partir deles que definem as suas expectativas e o modo como se relacionam com ele. Logo, as possibilidades de sucesso do movimento são influenciadas pelos enquadramentos que académicos e jornalistas lhe atribuem.

Ou seja, estamos aqui num novo plano de análise: a análise dos intelectuais que procuram “explicar” o movimento. Estes intelectuais são académicos, são jornalistas, são comentadores políticos e são também os dirigentes do próprio movimento. Então vale a pena recordar que nas vésperas da manifestação de 12 de Março o grupo que convocou a manifestação teve de enfrentar-se com comentadores políticos que queriam ver nela um conflito de gerações.

Enfim, mais do que comentar, este longo post coloca um mapa de questões a partir das quais vou “olhar” e comentar o movimento dos indignados nos próximos tempos.

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25 de Julho de 2011 - Posted by | Europa, Metodologia | ,

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