Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Um grande BPN

Analisadas a frio, a cimeira de líderes europeus e os resultados dos stress tests indicam que estamos frente a um grande BPN. Como disse no meu primeiro comentário sobre o assunto, a dívida dos países em crise está a concentrar-se nos seus bancos nacionais e no BCE. O Público nas edições do fim-de-semana noticiou isso mesmo, afirmando até que a banca alemã se livrou de um terço da dívida pública do Estado português.

Como mostra o gráfico ao lado roubado do Público de domingo, a dívida (em milhões de euro) concentra-se nos bancos portugueses, em especial no banco do Estado. O mesmo está a ocorrer nos outros países.

Quanto ao BCE, os dados não estão divulgados. Sabe-se que no final de março tinha apenas 432 milhões de euros em dívida pública de todos os países de toda  a UE (compare-se com qualquer dos bancos ao lado). Mas, por outro lado, 25% do capital dos bancos portugueses foi conseguido entregando ao BCE dívida pública como garantia (em inglês, colateral). 25% do capital dos bancos; não 25% da dívida. Não encontro em nenhum lado o valor do capital dos bancos. Mas começo a acreditar que toda a dívida pública foi entregue no BCE pois há mais de um ano que a banca privada não se consegui financiar de outra forma.

A dívida pública que serviu para enriquecer construtoras civis e bancos, passará agora a ser paga deste modo. Imediatamente os contribuintes da Europa do Norte irão pagá-la, através do Fundo Europeu de Estabilidade e Desenvolvimento que comprará divida portuguesa no mercado secundário. Note-se que muitos dos que vão vendê-la, os bancos acima e outros especuladores, já a compraram em saldos, no início da crise. A banca privada até vê os problemas de financiamento resolvidos, pelo menos por um tempo, vendendo a dívida ao FEED. Enfim, aqueles que fizeram lobby para que o Estado se endividasse, e em plena crise construísse um TGV, vão agora poder livrar-se da dívida que ajudaram a criar.

Num segundo momento, a dívida passará a ser paga pelos contribuintes da Europa do Sul, cujos modos de pagamento foram suavizados para tornar o pagamento viável. Mas é preciso deixar claro que estes contribuintes não são todos. Como ficou patente na criação do imposto especial sobre o subsídio de natal, Portugal tem uma conceção de equidade sui generis que deixa de fora os rendimentos de capital. Isto é, deixa de fora aqueles que engordaram à custa da dívida acumulada durante as últimas duas décadas.

A coligação entre políticos dos partidos do arco do poder, a banca e a construção civil geriu mal o país como a Sociedade Lusa de Negócios geriu mal o seu BPN. E quem paga as contas são os contribuintes.

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25 de Julho de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

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