Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Camila e a comunicação social

Camila Vallejo tem liderado o protesto dos estudantes chilenos que exigem do governo mais investimento na educação. Tem ido à televisão e passado a sua mensagem. A esquerda mundial deveria estar-se a perguntar qual é o seu segredo. Eu não acompanho o processo com a devida atenção. No entanto arrisco a seguinte afirmação: a receita do seu sucesso é a sua beleza.

Antes de me criticarem por machista peço um pouco de atenção para o meu argumento. Antes de me criticarem, coloquem a seguinte pergunta: como é que num país tão machista e capitalista como o Chile, uma mulher de 23 anos comunista conseguiu mobilizar o país em prol de uma educação publica? Afinal, não está a comunicação social ao serviço do capital? As primeira pergunta devia levar-nos a refletir que a segunda não pode ser respondida por um simples sim ou não. É preciso entender como o capital coloca a comunicação social ao seu serviço. Existe um trabalho de Bourdieu (Sobre televisão) que esclarece isso. Não se trata de um influencia direta – essa só acontece em casos extremos. Na maior parte dos casos, a própria dinâmica da vida dos jornalistas os orienta a defender o status quo. Como? Ora, pela pretensão constante de oferecerem notícias objetivas.

Uma notícia sobre um tema político jamais pode ser dada objetivamente.  Uma medida política tem sempre beneficiados e prejudicados… ainda que os primeiros achem que é o bem comum o beneficiado e não eles. Qualquer notícia política desencanta um ou outro grupo. O primeiro, se mostrar que não é o bem comum que está em causa. Ou o segundo, se a notícia repetir a tese do bem comum. O grupo “desencantado” acusará fatalmente o jornalista e a notícia de imparcial. Consequentemente, o jornalista, para manter o seu prestigio e “salvaguardar” a sua imparcialidade, vê-se obrigado a dar uma notícia política de forma a que as suas consequências sejam secundárias. Embora uma parte importante das notícias que ocupam os jornais e telejornais sejam sobre política, elas aparecem despolitizadas. As notícias transformam a política numa guerra de capelinhas entre partidos e omitem as consequências do debate sobre as pessoas comuns.

É por isso que os grupos de esquerda têm dificuldade em chegar às televisões. Não é devido a uma subserviência explícita ao capital, intencionalmente mantida pelos jornalistas. Existe sim uma fobia ao explicitamente político. Por isso, a esquerda precisa de um cavalo de troia para chegar aos telejornais. E a esquerda não tem mais nada a oferecer aos jornalistas que um debate político. É preciso que a beleza de Camila se torne assunto para que interesse aos jornalistas; e somente depois, ela pode passar a sua mensagens. Aliás, o mesmo pode ser argumentado a propósito do 12 de Março em Portugal. Não foi o Facebook que convocou uma das maiores manifestações que ocorreu em Portugal depois do 25 de Abril. O Facebook foi importante, mas de outra maneira. A novidade de ser a primeira manifestação convocada pelo Facebook é um assunto tipicamente jornalístico. Durante as semanas que antecederam o protesto, a manifestações foi assunto em quase todos os telejornais e, por influencia destes, nas conversas das pessoas comuns. A novidade do Facebook foi o cavalo de troia necessário para fazer a notícia chegar às telejornais. No momento em que o Facebook deixou de ser novidade e os organizadores do 12 de Março só tinham a oferecer aos jornalistas reivindicações políticas, e o tema deixou de interessar aos jornalistas.

Aliás, o mesmo poderia ser dito pelo PCP. Não existem ali lutas internas que possam ser expostas e tratadas em televisão. Só propostas políticas a que os jornalistas são avessos. Por outro lado, não é por serem comunistas, por serem contra os interesses do capital, que os dirigentes do PCP não conseguem ser ouvidos. É por serem contra os interesses dos jornalistas; contra o seu interesse de permanecerem “imparciais” e “objetivos”.

Estas conclusão não agradará a jornalistas nem a políticos de esquerda. Acabo da afirmar que o que interessa aos jornalistas é secundário. A sua pretensa objetividade impede-os de dar as notícias realmente pertinentes e leva-os a contribuir, ainda que não saibam nem admitam, para a manutenção do establishment. Mas suponho que ouvirei igualmente críticas dos dirigentes dos movimentos de esquerda. Eles não gostarão de ouvir que não é a direita maquineísta que os impede de ter tempo de antena nos meios de comunicação social.

Mas  tudo isto não chega. Em abono de Camila Vallejo, chegar à televisão não é suficiente para produzir uma luta do tamanho daquela que ocupa hoje os estudantes do Chile. A sua beleza pode ter sido o passaporte para entrar na televisão; mas uma vez lá é preciso saber o que dizer. E Camila sabe muito bem.

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23 de Agosto de 2011 - Posted by | Sem categoria

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