Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O preço da democracia

Não gosto falar daquilo a que chamam jobs-for-the-boys. Nem sequer considero isso corrupção nas minhas análises. A começar, porque considero-o o preço a pagar pela democracia. Este argumento remete para um texto escrito em 1919 por Max Weber.

Segundo o sociólogo alemão, para entender os partidos atuais – e a sua análise continua válida – é preciso 1) aceitar que estes são formados por uma classe média letrada ao serviço daqueles que representam; e 2) entender como esta classe média chegou à política e quais foram as consequências disso. É preciso reconhecer que antes de uma transição lenta, ocorrida entre os séc. XVI a XIX, a política era reservada àqueles que viviam da renda de suas terras e agiotas que viviam dos juros do seu dinheiro: isto é, só pessoa que não precisavam de trabalhar para viver poderiam viver para a política.

São precisamente estas pessoas das camadas mais elevadas da sociedade que, na sua disputa, vão munir-se do conhecimento da nova classe média letrada contratando doutores de leis (área de conhecimento que se veio a desagregar ao longo dos séc. XIX e XX nas mais variadas ciências humanas, desde a advocacia ao jornalismo, passando pela economia e pela sociologia). Foram primeiro contratados pelos monarcas absolutistas para legitimarem o seu governo e o afastamento de outros nobres do poder. Posteriormente, foram contratados por estes nobres e os primeiros jornais foram proto-partidos políticos. Finalmente, tornaram-se partidos, independentes dos seus patronos, mas sobrevivendo apenas à conta do Estado.

Se os nobres podiam viver para política, a classe média letrada teria de viver da política. Por outras palavras, esta ampliação democrática (não universalista) da política, pela invenção dos partidos, teve custos: os novos políticos não tinham forma de se sustentar, tendo portanto de ser sustentados pelos partidos. É por isso que me recuso a ver os jobs-for-the-boys como mais um caso de corrupção. Na verdade, ele é o preço a pagar por alguma democratização e, sem eles, a democracia ficaria de novo restrita aqueles que, por não necessitarem de trabalhar, poderiam viver para a política: as elites.

Não obstante, quando se nota que um governo, à sua chegada, nomeia sete pessoas por dia, o caso torna-se preocupante. É até uma questão de democracia. Se, como afirma Weber, a força de um partido é proporcional ao número de empregos que ele consegue oferecer, entende-se porque é que os dois partidos que se alternam no governo ficam, em número de votos, tão distantes dos outros.

Se acabar com os jobs-for-the-boys poderá reduzir ainda mais a nossa democracia; permitir um tão elevado número de boys é responsável pela péssima situação que vivem as Repúblicas Parlamentares atualmente.

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24 de Agosto de 2011 - Posted by | Partidos, Portugal, Sociedade portuguesa | , ,

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