Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Porque a esquerda se divide?

Anda a ser divulgada na Internet a carta às esquerdas, de Boaventura Sousa Santos. Nove verdades de La Palice que redundam num apelo à unidade anti-capitalista. Faria melhor o sociólogo se usasse a sua sociologia para ajudar-nos a perceber porque a esquerda se divide. Elevando essa compreensão ao outro patamar, talvez fosse mais fácil caminhar para uma união.

Eu fiz, em tempos, um trabalho em que procurei compreender esse fenómeno. Chamei-lhe “Legalização da prostituição e a esquerda dividida” e disponibilizei-o aqui. Considero que acertei mais na análise da esquerda do que na análise do problema da legalização da prostituição. A tabela ao lado apresenta um resumo dos meus argumentos.

Antes de explanar o conteúdo da tabela, chamo a atenção para a sua estrutura. A tabela resume uma análise que toca três dimensões analíticas: valores, organização e demandas. Apresentarei cada uma delas. As duas colunas da direita representam dois casos extremos frente a cada uma dessas demandas. As situações reais são intermediárias entre esses dois casos. Por isso, não vale a pena sucumbir ao pensamento pequeno-burguês de “no meio está a virtude”.

Uma vez que os extremos não existem, o meio não pode ser objetivamente determinada. O que quer dizer que, embora eu aqui trabalhe a partir dos dois extremos teóricos, nunca são os extremos que estão em disputa. O que está em disputa é se a solução está mais próxima de um ou outro extremo, em relação ao ponto intermédio onde nos encontramos a cada momento. Mas para tornar essa disputa inteligível é preciso supor uma disputa entre os casos extremos. Tendo isto presente, passemos à análise do conteúdo da tabela.

A primeira linha diz respeito aos valores com que os políticos de esquerda orienta a sua luta. Uns confiam no conhecimento dos especialistas; outros na vontade das massas. Esta tensão está muito explícita na análise que Ann Robertson fez do conflito entre Marx e Bakunin. De um lado, se defende a meritocracia, mas é preciso lembrar que este é um modelo elitista. Do outro, e contra este, a democracia – mas é preciso acrescentar algo que Platão lembrava: a democracia é o governo dos não-preparados. Trata-se portanto de uma oposição entre um elitismo meritocrático e uma democracia naïfe.

A segunda dimensão deve ser compreendida não apenas em si, mas na forma como se relaciona com a primeira. Quando falo de partido social-democrata uso o termo no sentido da teoria dos movimentos sociais, portanto estou a referir-me ao modelo leninista de partido, isto é, ao centralismo democrático. A sua verticalidade é, claramente, a realização do ideal meritocrático. Obviamente, a plataforma anarquista é a concretização da democracia, tal como exposto acima.

Não obstante, a realidade prega partidas – e, neste caso, inverte causa e efeito. Quando o individuo entra na política, ele entra pela mão de uma organização e tende a privilegiar a forma de fazer política mais adequada à organização que o atraiu. Todos começam por fazer antes, e aprender depois o porquê. E, quase sempre, se aprende aquilo que justifica o que fazemos. Quer porque está mais acessível, quer porque logo seria rejeitado o outro, pois em nada contribuiria, no imediato, para o trabalho em mãos.

Em consequência disto, as próprias disputas entre a esquerda se tornam um diálogo de surdos: uns sabem o que os outros nem sonham, e vice-versa.

A terceira linha é o efeito causado pela articulação entre as duas primeiras. Mas é precisamente esta a parte visível do debate. De um lado, existe uma clara hierarquia das demandas, em que a luta dos trabalhadores, historicamente mas não obrigatoriamente, encabeça a lista. E outras demandas só serão aceites se subordinadas e articuladas com a primeira. Do outro lado, se aceitam todas as demandas, não obstante das contradições em que o movimento incorre. Entende-se aqui os motivos das disputas. Os primeiros, ao ignorarem demandas, são acusados por essa discriminação. Os segundo são acusados pelas suas contradições e falta de clareza. Uns e outros defende-se do mesmo modo: postergando a resolução desses problemas para um futuro utópico.

Há ainda que acrescentar outros efeitos desta tensão: a dimensão pessoal das disputas. Pois, naturalmente, esta tensão gera brigas que são entre pessoas e se tornam pessoais. O acumulo histórico de brigas é mais uma barreira entre as várias frações da esquerda. Este acumulo determina o caráter específico do problema de lugar para lugar, país para país.

Infelizmente, toda a disputa se processa no nível das demandas e no nível pessoal, isto é, no nível dos efeitos. As causas, a articulação entre os valores e as formas de organização, permanecem a salvo do debate. Raras exceções, se criticam as formas de organização, mas sem perceber os seus efeitos. Se crítica apenas por não respeitar o valor que lhe é oposto; o que permite que a organização se defenda pelo valor correspondente. Os valores, esses, nunca são discutidos.

Não sei até que ponto há um “efeito de teoria” (P. Bourdieu) nesta análise. Aqui levo ao extremo o método subjacente ao blog. Então é possível que eu, de forma desprevenida, tenha adaptado os dados às hipóteses (ao método) ao invés de, como era correto, fazer o contrário.

Porque vejamos: a tabela, com alguns postulado presentes no texto, permitem analisar qualquer disputa. Esses postulados são: 1) O uso de casos extremos para auxiliar o raciocínio (valor heurístico), mas tendo em contra que os casos extremos nunca existem. 2) A articulação entre as três dimensões de análise: a. A forma de fazer as coisas (aqui, de organização) orienta para a forma de ver o mundo (aqui, para valores); b. A forma de ver o mundo legitima a forma de fazer as coisas; e c. Ambos determinam as demandas e o modo de relacionar-se com os outros. 3) A crescente invisibilidade da terceira para a primeira linha.

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25 de Agosto de 2011 - Posted by | Ideologia, Metodologia |

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