Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Nota sobre a prostituição

No domingo vi o filme As princesas de Fernando León. Hoje chamaram-me a atenção para esta notícia. O comentário que me apraz é o seguinte: A luta pela legalização da prostituição tende a fazer esquecer que a prostituição só pode ser legalizada num sistema capitalista e machista. Não quero ir mais longe, apenas chamar atenção para uma cena do filme.

Cayé, a prostituta protagonista do filme, conhece e começa uma relação com Manuel, um nerd da informática. Contou-lhe que era prostituta no primeiro encontro; mas ele não acreditou. No segundo encontro, adivinhar a profissão dela tornou-se um jogo de namorados. O terceiro encontro foi imprevisto. Um amigo de Manuel havia contratado uma prostituta, Cayé, para servir os dois. Eles não voltam a encontrar-se. A relação acaba assim: Manuel traiu Cayé ao procurar uma prostituta; assim como Cayé traiu Manuel ao prostituir-se. Não houve um quarto encontro para que os dois tivessem sequer a oportunidade de colocar os seus pontos de vista.

A pertinência da cena está na inteligência de colocar o acto de prostituir-se assim como o acto de procurar uma prostituta, ao mesmo nível – simétricos. Dois pecados que não se anulam; duas traições donde não pode sair a confiança. O erro da luta pela legalização da prostituição está em, na maioria das vezes, olhar apenas um dos lados da moeda. Ela esquece que não se pode legitimar o trabalho sexual (como gosta de dizer) sem legitimar o consumo do sexo. E, de igual modo, por simples extensão do raciocínio, sem legitimar o empresário do sexo, isto é, o proxeneta.

Afinal, o valor moral do trabalho sexual não existe em si, mas na medida em que reflete o valor do produto que vende: o serviço sexual. E tornar aceitável o serviço sexual implica não apenas tornar aceitável o trabalho sexual, mas todos os outros “pontos cardinais” da relação (neste sistema capitalista): trabalhador, consumidor e patrão/investidor. E, ao mesmo tempo, isto não se faz sem transformar a relação fortemente hierárquica entre o sexo por dinheiro e o sexo por amor. O valor de um é exatamente o inverso do outro.

Dilacerando o assunto, vendo-o só de um lado, aqueles que defendem a legalização da prostituição, insistem nos seus argumentos, que apenas só são válidos porque, à partida, deixam de lado todos os aspectos do problema com os quais não querem lidar.

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30 de Agosto de 2011 - Posted by | Feminismo, Ideologia | , ,

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