Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Onde andam os pedreiros?

Dizer que Sócrates foi incompetente só tem turvado a visão da esquerda. Não me parece que ele tenha sido mais incompetente que António Guterres. Por outro lado, sei que ele enfrentou mais dificuldades que qualquer outro governo desde Cavaco e Silva. Entender essas dificuldades é fundamental para orientar a luta de massas. É que as dificuldades que Sócrates enfrentou resultam da divisão da classe burguesa. Entender por onde a classe burguesa estruturalmente se divide é localizar as suas fragilidades. E só isso permitirá acelerar a luta e torná-la mais eficaz.

Volto a insistir (como fiz aqui e atualizei aqui) que, durante o ano de 2010, a fração da classe burguesa que comanda os destinos de Portugal mudou. As acrescidas dificuldades de Sócrates foram provocadas pelo facto de ele ter-se alinhado com o status quo no momento em que esse status quo estava de saída. A construção civil, aliada à banca nacional, conduziam os destinos do país desde, pelo menos, do governo do Primeiro-Ministro do betão que dá pelo nome de Cavaco e Silva. Por outro lado, os exportadores vinham há muito tentando tomar o lugar dos construtores civis. Com Passo Coelho, o PSD tornou-se o portador dos seus anseios. Os exportadores tiveram a felicidade de estar alinhados com a banca internacional que, por intermédio de Bruxelas, procurava impor a Portugal as mesmas políticas.

No ano de 2010 havia uma guerra aberta duas frações do empresariado. Uns contra Sócrates, os exportadores (lembremo-nos de Soares dos Santos e outros administradores do grupo Jerónimo Martins)… E, claro, outros, os construtores civis e até certo ponto a banca nacional, defendendo-o (o melhor exemplo talvez seja o Grupo Lena, dono, à época, do jornal i ). A entrada do FMI em Portugal foi a declaração de derrota da banca; e a vitória eleitoral de Passos Coelho foi a tomada de poder dos grandes exportadores.

Se dúvidas existem, veja-se o que diz o Expresso economia (5/11/2011, p. 2):

Os números são impressionantes: entre novembro de 2007 e novembro de 2011 a capitalização bolsista do PSI-20 caiu a pique. A banca foi o sector mais afetado. O BCP vale hoje 8,3% do que valia há quatro anos, o BPI apenas 10% e o Banif 13%. O BES foi a instituição que menos desvalorizou, mas ainda assim passou de €8,1 mil milhões para €1,6 mil milhões. Retirando a EDP Renováveis, que não era cotada em 2007, 15 das atuais componentes do índice perderam mais de 50% da capitalização bolsista. A Cimpor registou a menor quebra, ao passar de €4 mil milhões para €3,4 mil milhões. Galp e Jerónimo Martins marcam a diferença num panorama negro. A empresa de Alexandre Soares dos Santos é a ‘estrela’ do grupo: passou de €3,2 mil milhões para €7,6 mil milhões.

Obviamente isto não quer dizer que o PS represente os construtores civis e o PSD os exportadores. Isso aconteceu, de facto, desde o momento em que Passos Coelho chegou a liderança do PSD até ao momento em que José Sócrates saiu do governo. Mas assim como Manuela Ferreira Leite brigou, em tempos, com Sócrates, pela confiança da banca nacional e dos construtores civis; hoje, José Seguro concorre, com Passos, pelo apoio dos exportadores. (É isto que faz do ano de 2010 um ano especial: as fraturas entre os grandes partidos alinharam-se pelas existentes entre os grandes grupos económicos, expondo as fragilidades da elite nacional).

Assim sendo, não deveríamos todos estar a tentar organizar os trabalhadores da construção civil? Os maiores prejudicados desta transformação ao mesmo tempo económica, política e social.

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8 de Novembro de 2011 - Posted by | Economia, Sociedade portuguesa | , ,

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