Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

30 moedas

Volto a insistir que a entrada do FMI em Portugal coincidiu com a mudança de carro-chefe da economia: a aliança entre a banca e a construção civil deu lugar a sector da exportação aliado à banca franco-alemã. Mas devemos recordar que  isso só foi possível porque a banca nacional resolveu romper com a aliança, em troca de um programa de recapitalização que lhe permitira sobreviver sem os seus dois clientes favoritos: os Estados (obras públicas) e as famílias (crédito à habitação). Isto é, foi preciso garantir à banca um plano de sobrevivência ao divórcio com os construtores civis.

A acomodação da banca portuguesa ao perfil proposto para a economia portuguesa está em aberto. A banca já fez do Público o seu órgão central. Na passada terça-feira passada, na sexta e no sábado, a troca de galhardetes entre a banca e o governo de Passos Coelho foi descrita bem à medida dos interesses da banca ou, mais exatamente, a deixar bem claras as “razões” da banca, sem que a mesma atenção fosse dada às “razões” do governo.

Ontem (13/11/2011), o DN, que me parece jogar na equipa adversário, dos exportadores, deixou claro que o que se está a negociar é o pagamento das 30 moedas. Na edição em papel desta notícia, o DN nos informava (sublinhado meu):

Em sua defesa dizem nunca terem tido comportamentos de risco e que a sua situação difícil se deve exclusivamente à crise de dívida da República, que lhes fechou o financiamento, e à compra que fizeram de obrigações soberanas nacionais. Aliás, foi a posição concertada dos bancos de não comprar mais dívida portuguesa que precipitou o pedido de empréstimo à troika.

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14 de Novembro de 2011 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

1 Comentário

  1. Certo José Ferreira. Deixa-me adiantar estes desabafos

    Sublinho que há uma ligação íntima, promíscua entre Estado e banca, especificidade de um casamento bem sucedido entre Estado e capital. Se há coisa que se aclarou para os mais distraidos, com esta crise, é a simbiose entre capital e Estado.

    A banca, coitada, que tanto se queixa, andou feliz enquanto o Sócrates recorria a eles com taxas de mercado (7 ou 8%) e eles somente assumiam o risco de recorrer ao BCE pagando 1 ou 1.5% de juro… entregando como garantias as obrigações do Tesouro. Se isto não é parasitismo, gostaria me explicassem o que é parasitismo.

    Dias atrás o Ulrich do BPI dizia, com frontalidade haver sobredimensionamento na banca portuguesa; e, de facto, a Troika está a estudar a fusão do BPI/BCP/BES com a criação de um bad bank para acumular os incobráveis e tóxicos. Quem serão os accionistas do tal bad bank? Não sei, mas calculo quem será.

    Acontece que a banca se lançou na promoção imobiliária, tornando “obrigatória” a compra de casas por toda a gente, incluindo “subprimes” à portuguesa; aqueles que agora estão com prestações em atraso e a ser objecto de execução de hipotecas.

    Essa promoção gerou uma situação trágica e caricata; milhares de prédios abandonados, em ruina sob os olhares de autarcas alheados esperando o seu desmoronamento; milhares de segundas habitações que tornam Portugal o país europeu com mais fogos por 1000 hab; e isto sem que toda a gente possa suportar o pagamento de uma habitação própria, mormente jovens e precários menos jovens, quinhentos euristas

    A banca virou-se para a promoção imobiliária e para algo economicamente estúpido por parte do povinho (crédito para comprar carros de bela cilindrada, mobiliário, viagens às Caraíbas) a amortizar em 40 e 50 anos. Se alguma vez fizerem contas verão que no final irão pagar 3 viagens à volta do mundo e apenas gozaram uns oito dias em Cancun

    De facto, a banca não tinha outra hipótese no “mercado” nacional pois as empresas nacionais, descapitalizadas (mas com donos de elevado património pessoal) já não tinham bens hipotecáveis. A banca está cheia de hipotecas de instalações industriais sem préstimo, aguardando ruina ou a transformação em empreendimento imobiliário, depois de untadas as mãos a autarcas, a troco da sua transformação em terreno urbanizável.

    O empresariato português não vale um caracol. Portugal é o único país da Europa onde a habilitação média dos TCO é claramente superior à dos distintos empresários. E com esta gente não se vai longe; são cerca de 440000 empresários sem préstimo algum, a eliminar, a “proletarizar”. E, do ponto de vista da multidão, só se perdem incompetentes e maus pagadores de salários de miséria

    O subdesenvolvimento de Portugal, a sua histórica falta de uma burguesia empreendedora vai conduzir a um modelo típico de terceiro mundo – predomínio do capital estrangeiro e da importância do Estado. Vamos ser colonizados e, eventualmente tomados como uma 18ª autonomia ibérica. A soberania finou-se.

    Vítor Lima
    Grazia.tanta@gmail.com

    Comentar por vitor Lima | 14 de Novembro de 2011


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