Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Análise estrutural do samba

O samba do Rio de Janeiro tem crescido muito. A Pedra do Sal, o lugar onde os escravos eram vendidos, tornou-se um ponto de encontro do samba muito importante. Toda a segunda-feira tem a Roda de Samba da Pedra do Sal que há sete anos faz samba ali. De há uns meses para cá, o grupo Samba da Lei começou a ocupar o espaço à sexta-feira. À segunda e a sexta, a Pedra do Sal enche. Uma hipótese porque isto acontece: A mobilidade social dos últimos dez anos fez chegar à universidade muita gente que vem de famílias que nem sonhavam fazê-lo. Falo de um advogado que nasceu, cresceu e vive em Madureira; ou da estudante de turismo cujos pais são emigrantes da Bahía. Ambos negros, ambos saídos de uma família pobre, ambos com formação superior.

Para reforçar esta ideia, é preciso colocar o samba da Pedra do Sal na sua posição estrutural. De um lado estão as casas de samba da Mem de Sá, na Lapa, cujo o público é predominante branco, entre uma classe média alta e turistas. Paga-se um cover entre 20 a 40 reais, cerveja cara, etc. No outro extremo está a Roda de Samba da Feira, na Feira da Glória toda a tarde de domingo. Este também é um samba elitista como o anterior, mas não no sentido financeiro. É uma elite dos que sabem samba. Há uma disputa não dita entre os participantes a ver quem sabe um samba que os outros desconhecem. Ou seja, na Mem de Sá, passa o samba mais divulgado; na Feira da Glória o samba mais desconhecido. Na Mem de Sá cantam os músicos; na Feira da Glória canta o público (pois é o público que entra em disputa para mostrar que conhece o samba).

A Pedra do Sal, isto é, a Roda de Samba da Pedra do Sal e o grupo Samba da Lei, está no meio termo, embora cada grupo por razões distintas. Boa parte dos membros do grupo da Roda de Samba da Pedra do Sal são parte integrante do grupo Batuque na Cozinha, que toca na Mem de Sá, e torna a roda conhecida. Ali é o espaço que eles têm para tocar o que gostam – o menos conhecido – e não o que lhes dá dinheiro às sextas-feiras. (Nem por acaso, tocam ali à segunda-feira). Portanto, são um grupo capaz de atrair tanto o público da Feira da Gloria como da Mem de Sá. Diga-se de passagem que foram os membros da Roda de Samba da Pedra do Sal que não integram o grupo Batuque na Cozinha que criaram a Roda de Samba da Feira, radicalizando o projeto.

O Samba da Lei é o que melhor explica toda este fenómeno. Explica o crescimento do samba; explica a vontade dos membros do grupo Batuque na Cozinha em cantar samba desconhecido; explica porque é que estes dois personagens, negros, com estudos, oriundos de famílias pobres, são o público que está a encher as rodas de samba. Eles tocam sambas desconhecidos mas, de sexta para sexta, sempre os mesmos. Os frequentadores habituais já os sabem de cor distinguindo-se dos turistas, numa competição mais fácil de ganhar qiuie na Feira da Glória. Aliás, Lendas da Mata é um samba de excelência. Escrito por João Martins (da Roda de Samba da Feira) e por Di Caprio, nunca foi gravado. É tocado toda a sexta na Pedra do Sal. Quem é frequentador habitual sabe-o de cor; quem é turista nunca o ouviu. Isto é, o Samba da Lei facilita a criação de uma entidade ligada ao samba, um nós (os brasileiros, negros, cariocas) VS eles (os gringos, brancos), que permite a esse grupo de recém-ascendidos à classe média encontrar a sua identidade.

Isto leva a outra questão: à definição de samba de raiz. Samba de raiz não existe; é uma construção recente desta classe média. Numa definição mais ampla, é todo o samba exceto samba enredo e o pagode (também chamado de samba paulista), esse samba comercial com melodias permitidas pela introdução de instrumentos eletrónicos. Numa definição mais restrita ele é, para uns, o samba de roda da Bahía, para outros, um samba com referências ao candomblé. Está ideia marca muito a seleção dos sambas na Pedra do Sal. “Rosa Maria” de Aníbal da Silva e Eden Sílva e “Oxossí” de Roque Ferreira são o sucesso garantido que o grupo Samba da Lei usa, propositadamente, para atrair público. A estrutura musical do primeiro é um samba de roda perfeito; a segunda música é quase uma reza. Mas aqui se coloca um problema: o samba de raiz também é definido pelo facto de ser desconhecido. Por isso, a Roda de Samba da Pedra do Sal e a Roda de Samba da Feira quase não cantam estes sambas.

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25 de Novembro de 2011 - Posted by | Brasil, Sociedade Brasileira | , ,

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