Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O orçamento de estado

Acabo de ouvir a análise do Público sobre as sequelas políticas do orçamento de estado. As observações de Leonete Botelho são três. 1) O fim do estado de graça de Passos Coelho. Ao levar a austeridade além do que era esperado, Passos Coelho perdeu o apoio dos portugueses. 2) O fim do estado de graça de José Seguro. A direção do PS não conseguiu impor à sua bancada parlamentar o voto favorável ao orçamento. A ala “socrática”, a maioria dos deputados, desejaria votar contra. A abstenção foi a solução de saída. 3) Tudo somado, leva Botelho a prever o aumento da tensão entre a coligação de governo e o maior partido de oposição, durante o próximo ano. A “estabilidade política” que conhecemos no segundo semestre de 2011, pelo menos na Assembleia da República, parece estar em causa para o ano de 2012.

Mas os partidos baralham uma guerra que, em definitivo, é jogada entre duas fracções da classe burguesa. É mais fácil compreender o que se passa pensado em coligações do capital. De um lado, a construção civil e a banca nacional; do outro, os exportadores e a banca franco-alemã. Brincando: a coligação da Mota Engil-BES ou Grupo Lena-BPI está na oposição; enquanto que a coligação Jerónimo Martins-BundesBank está no governo. Os partidos baralham porque enquanto Cavaco e os amigos de Sócrates defendem a coligação Mota Engil-BES, Coelho e Seguro militam pela Jerónimo Martins-BundesBank.

Este orçamento de estado é a primeira decisão política importante, desde a entrada do FMI, em que o setor da construção civil e da banca nacional não de submete, de livre vontade, ao projeto que a banca internacional e os exportadores têm para Portugal. (Sobre o reordenamento entre as frações da burguesia nacional ver o que escrevi, por exemplo, aqui).

Existem três razões nacionais para que isto aconteça. 1) A situação em que a estratégia proposta pela banca alemã deixa a banca portuguesa: é praticamente uma nacionalização. A banca já veio reclamar e o seu representante, Cavaco e Silva, já veio defendê-la. Mas o ministro das finanças já foi claro: quem manda é Bruxelas. 2) O sector exportador não parece ser capaz de assumir o lugar do sector que mais emprego gera em Portugal: a construção civil. E as últimas notícias foram más notícias (ver aqui também). 3) O peso da austeridade poderá levar ao incumprimento dos portugueses no pagamento das suas dívidas aos bancos. É notável que o maçom João Proença tenha estado afinado com a coligação Mota Engil-BES nesta análise. É preciso lembrar aqui o peso dos construtores civis na maçonaria (ver DN [papel] 12/11/2011, p. 13).

Em resumo, a banca não está disposta a continuar no lugar subordinado aos exportadores que aceitou em Abril passado. É por isso que Leonete Botelho tem razão: Passos Coelho pode esperar, para 2012, um ano tão caótico quanto aquele que teve Sócrates em 2010.

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2 de Dezembro de 2011 - Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , ,

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