Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A cassete do PCP

Durante anos fui acusado de cassete. Sempre reclamei! As pessoas acusam-nos de não pensar pela nossa cabeça quando estamos de acordo com algum grupo organizado (neste caso, um partido). Esquecem que quase nunca pensamos pela nossa cabeça. Porque estarem desacordo, é inverter as ideias do grupo organizado. E sempre que procuramos ter ideias da nossa cabeça, caímos num senso comum pautado pelos grandes meios de comunicação. Excetua-se talvez a nossa área de especialização: mas também aqui acabamos por ser alinhados pelos métodos e técnicas da nossa profissão. Lembrando a história da rã e da panela de água a ferver, podemos dizer que vivemos num mundo de panelas de água a ferver.

Mas há um fundo de verdade na crítica que me faziam. Há panelas que são mais panelas que outras. O problema é que nunca conseguimos entender porquê. Estes dias encontrei um trecho de um texto, sobre a polícia francesa, que bem poderia ser aplicado ao PCP:

Se é difícil obter dos policiais afirmações que escapem um pouco às diretrizes da hierarquia ou das instruções das organizações sindicais, é menos a consequência do facto de fazer parte de uma corporação – como acontece com os policiais militares ou magistrados – do que uma espécie de desconfiança quase institucionalizada em relação a tudo o que é estranho (“ao serviço”). Essa espécie de suspeição, transmutada em virtude profissional – “a vigilância” – é reforçada, diferentemente de outras profissões, em que a reserva, o segredo, o anonimato etc., constituem atributos de função, pela preocupação constante em retificar, em relação ao “exterior”, a representação depreciativa da corporação.

Remi Lenoir, “Mulher e policial”. In: Pierre Bourdieu (org.), A miséria do mundo. Petrópolis: Editora Vozes, 2011

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6 de Dezembro de 2011 - Posted by | Partidos, Sociedade portuguesa | ,

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