Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Desabafo

Estou cansado de ver divulgado um certo vídeo que tem o título Esta merda precisa de acabar. Trata-se de uma simples resenha do que o senso comum sabe da história do século XX, arrematado com aquela frase populista: “esta merda tem de acabar”. Um discurso que se esquiva a definir culpas e culpados, num momento em que está em curso uma aberta luta ideológica sobre os motivos que nos levaram à crise.

É preciso recuperar o materialismo-dialético enquanto método de análise da realidade concreta (quem são os indignados? como podemos analisá-los desde uma abordagem marxista? porque estamos em crise? por causa dos políticos corruptos ou de um sistema que para crescer tem de criar, inevitavelmente, situações de crise?). Porque é preciso deixar bem clara a distância que temos da direita mais radical. E, ao mesmo tempo, não deixar que outros cresçam às nossas custas.

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9 de Dezembro de 2011 - Posted by | Ideologia, Metodologia | ,

2 comentários

  1. Isso. A corrupção só é pensada como causa, e não como consequência. Não se analisam suas causas, só seus efeitos. É usada como bandeira de luta da direita e da esquerda, de maneira irrefletida ou proposital – e costuma ser brandida como espada pelos meios de comunicação quando não é a direita que está no poder. Na Espanha, o movimento dos indignados abriu espaço para que a direita ganhasse as eleições municipais. No Equador e Brasil usam essa bandeira contra governos progressistas, redistribuidores de renda. Indignar-se contra alguma coisa virou um rótulo que pode ser usado à vontade e servir a qualquer propósito …

    Comentar por Sabrina | 15 de Dezembro de 2011

    • Olá Sabrina. Obrigado pela resposta.

      Gostava de acrescentar algumas coisas. Em primeiro, se a política não é um epifenómeno da economia; mas a economia estabelece as condições de possibilidade da política. Por outras palavras: e economia não determina o momento em que a revolução vai acontecer; mas determina quando ele não pode acontecer. Neste sentido, quando falamos dos Indignados de São Paulo ou do Rio não falamos da mesma coisa quando nos referimos aos de Wall Street ou de Madrid. Ou, por outro lado, do Cairo e o resto do Norte de África. Assim temos, pelo menos, três regiões do mundo onde os Indignados mudam de perfil devido às condições económicas. E, ao mesmo tempo, a diferença de condições políticas faz com que em Madrid os Indignados tenham um perfil distinto dos de Wall Street.

      Em segundo lugar, tenho dificuldade em concordar contigo ao classificar o governo brasileiro como progressista. Basta ver todo o desenvolvimento da fileira do aço e os custos ambientais que ele “promete”. De um lado, a usina de Belo Monte que servirá apenas para que mais empresas de extração de minério se instalem na Amazónia. Por outro, todas as transformações no zona oeste do Rio de Janeiro (Baía de Sepetiba), onde se instalou a alemã TKCSA, para dar um primeiro tratamento ao aço que será transformado, já na Alemanha, em automóveis. Daí, mais que um governo progressista, o que temos no Brasil é um capitalismo que, por enquanto, está a dar certo.

      Finalmente, isto não faz dos Indignados no Brasil algo de esquerda. Sou, esse aspeto, gramsciano. Enquanto o capitalismo dá certo, mudar é impossível. É nesse sentido que a economia determina a política. E é por isso que, como disse aqui, desconfio muito dos Indignados à brasileira.

      Comentar por Jose Ferreira | 15 de Dezembro de 2011


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