Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A luta ideológica

As sondagens mais recentes mostram que a esquerda está a perder intenções de voto para a direita. Parece-me importante refletir sobre este assunto, sobretudo depois de uma das maiores dos últimos anos. A questão que se coloca é a seguinte: se conseguimos que as pessoas percam um dia de salário para mostrar o seu descontentamento, porque não conseguimos que elas alterem o seu sentido de voto? (A velha pergunta do Aurélio Santos: como transformar o descontentamento social em ação política?)

Em outro texto argumentei que as pessoas não conhecem outra solução que aquela que estão habituadas a escolher. Por isso, sempre que o modo como estão habituados a votar deixa de ser uma solução (refiro-me aqui particularmente aqueles que alternam entre o PS e o PSD), é mais fácil, para estes, abster-se do que votar de modo diferente. Incapazes* de encontrar alternativas no boletim de voto, preferem não votar. Este é um aspecto para o qual as sondagens estão pouco afinadas.

De qualquer modo, parecem-me haver outras razões que determinam a “solidez” da direita face à fragilidade da esquerda. Trata-se da disputa ideológica** em torno das causas da crise. Será a crise motivada pela incompetência e corrupção dos políticos? Ou será, pelo contrário, inerente à própria dinâmica do capitalismo? Gostaríamos de ter a saída fácil de responder: as duas coisas. Mas logo nos deparamos como uma não solução. Se foi a atitude dos políticos a causar a crise, então a solução é reduzir o dinheiro que o Estado movimenta. Se o problema não está nas pessoas mas na dinâmica do sistema, então o Estado deve dotar-se de mais recursos para controlar o sistema capitalista. As duas soluções caminham em sentidos opostos: a primeira para a direita, a segunda para a esquerda.

Aqui está o calcanhar de Aquiles da esquerda: passar da crítica das pessoas à crítica do sistema implica passar a um nível de abstração que as pessoas, mesmo os militantes de esquerda, não estão habituados. Consequência disso, para a esquerda, o capitalismo deixou de ser um modo de funcionamento da economia que, em cada momento, como hoje, adquire caraterísticas específicas. O capitalismo passou a assemelhar-se ao inferno: sabe-se que é um lugar mau, embora não se saiba muito bem o que por lá se passa. Por isso mesmo, os militantes de esquerda não conseguem criticar o sistema, só os homens (necessitando de imaginar uma rede omnisciente de conspiradores). A esquerda acaba assim por embarcar no discurso moralista e a fazer o discurso da direita***.

Notas:

* Temo que esta expressão possa ser mal interpretada. Mas desde já não estou nem a tomar os eleitores por burros, nem a desqualificar as propostas dos outros partidos. Estou, pelo contrário, a referir-me ao modo como as competências sociais são distribuídas pelos processos de socialização (pela cultura). Esse tema é o eixo central do texto referido.

** Nunca foi tão necessário abandonar a ideia que o senso comum atribui a ideologia (utopia que direciona um programa político) por aquela, menos conhecida, de Marx: ponto de vista sobre a realidade, ainda que verdadeiro sempre parcial, que fundamenta o modo das pessoas agirem e reagirem. As lutas políticas, e em particular as lutas de classes, são consequência de conflitos entre interesses fundamentados em diferentes pontos de vista. Lendo Marx, Leonardo Boff escreveu: “um ponto de vista é a vista desde um ponto”. Assim, vemos que o ponto de vista não é uma escolha, mas a consequência de uma posição social, incluindo de uma posição de classe.

*** A compreensão do sistema capitalista leva a afirmar que não se trata de escolher entre ter um Estado mais ou menos gastador, mas de escolher onde gastar. Não obstante, é indispensável conhecer o sistema para se ter uma noção das opções.

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11 de Dezembro de 2011 - Posted by | Ideologia, Partidos, Sociedade portuguesa | , , ,

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