Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Bem-aventurados disparates

Volto a ser surpreendido com uma carta aberta às esquerdas de Boaventura Sousa Santos. Depois da primeira, leio agora a terceira. Graças a algum santo, perdi, felizmente, a segunda. O mesmo erro; a mesma preguiça intelectual. Talvez mais grave agora.

Diz o douto sociólogo que a separação entre os Indignados e a esquerda tradicional deveria fazer a esquerda refletir. Bom: olha ao que eu digo, não olhes ao que eu faço. Nem uma pista, nem uma hipótese ao longo do texto. Pelo contrário. Só um deslumbramento injustificado com os novos movimentos e qualquer coisa de crítica amarga pela incapacidade da esquerda não ter a capacidade de incorporar esta coisa qualquer que não se sabe bem o que é.

Num sociólogo, um artigo destes é imperdoável. O que Boaventura deveria ter feito é responder a duas questões: Porque é que este movimento nasce divorciado da esquerda tradicional? E porque é que o movimento anarquista é o único que encontra eco entre os Indignado (a começar pela escolha do nome)?

Para a primeira pergunta eu já propus uma hipótese (ver aqui também) válida, pelo menos, para o caso português. Em resumo, o ataque aos sindicatos a partir da década de 1990, fez com que estes se reduzissem cada vez mais a alguns sectores “protegidos”: a função pública e os transportes. Ora, os Indignados surgiram entre jovens desempregados ou com vínculos precários. Isto é, onde os sindicatos não estavam.

Quanto à segunda pergunta, a questão também foi, desde muito cedo, alvo da minha crítica. Mais recentemente, atualizei a análise aqui. Num curto sumário posso dizer que os Indignados se pensam entre dois tipos ideais. De um lado, um nós/eles em que o nós são os trabalhadores e o eles os capitalistas. Do outro, um nós cidadãos e um eles políticos corruptos.

A proximidade ao primeiro extremo é efeito da proximidade (passada) à esquerda tradicional, assim como facilita a aproximação (futura) a ela. No outro extremo acopla-se a direita, inclusive a extrema-direita neo-nazi. Por incrível que pareça, os anarquistas sobrepuseram os dois discurso e ganharam a liderança “ideológica”, embora não prática/organizacional.

Não teria contribuído muito mais o texto de Boaventura se tivesse tentado fazer a reflexão que propõe e que ignora que existe?

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14 de Dezembro de 2011 - Posted by | Ideologia, Mundo | , ,

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