Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre Estaline

Álvaro Cunhal disse, em Cinco conversas, não ser necessária repetir a análise da URSS feita no congresso do PCP (salvo erro) de 1993. Não porque a crítica da URSS atualmente em marcha não tem outro objetivo que querer levar com ela, com a URSS, todos os partidos comunistas existentes. Nem eu nem o PCP devemos contribuir para isto. Em segundo lugar, qualquer análise do fim da URSS deve começar afirmar que o número de vítimas do comunismo deve ser dividido por 40, em relação a números divulgados pelo youtube, como mostra esta entrevista e este artigo científico. Por último, como prova o surgimento dos Indignados, Marx tinha razão: são os fatores económicos que determinam a política. Em consequência, dizer que foi a falta de democracia que levou à dissolução da URSS é… uma falácia. Mais razão tem Mazoyer, para quem o problema foi a falta de trigo. Ou talvez Reynolds, para quem o problema foi a falta de petróleo.

Entretanto vale a pena colocar a pergunta: Porque é que uma utopia tão bonita degenerou numa ditadura? Ditadura de fato, como deve considerar-se qualquer regime onde os adversários políticos são condenados à morte (excetuo daqui, obviamente, os períodos de guerra civil, incluindo nestes os tribunais militares da Revolução Cubana). A resposta é “Não sei“. Ou, mais exatamente, não sei mas tenho uma hipótese. A hipótese é que Lukács tenha razão no que escreveu já em 1933. Para Lukács, Estaline afastou-se de Marx em direção a Kant. E esse “desvio” filosófico teve consequências políticas.

Para Lukács ou, no mínimo, para o Lukács lido por mim, a ideologia burguesa está assente no pensamento de dois ideólogos: Descartes e Kant. A ciência burguesa busca leis universais de validade atemporal (este aspeto é crucial). Toda a geração de Hegel (Gothe, Schiller, etc.) iniciaram a crítica da ciência burguesa. Corretamente afirmaram que a natureza e a sociedade muda com o tempo, por isso não existem leis de validade atemporal. Por outro lado, disseram que cada lei científica não existe senão na cabeça dos homens e, por isso, cada nação veria, na natureza e na sociedade, leis diferentes (estou a simplificar demasiado). Marx aceitou apenas a primeira crítica. Lukács vai mais longe: Marx recusou a segunda crítica porque anulava a primeira. Aceitando a segunda, as leis são históricas – isto é, não atemporais – porque se dão mudanças na cabeça dos homens, e não nas coisas.

Com pouca correção, temos três teses

  • O mundo não muda e, por isso, pode ser descrito por leis universais e atemporais… diria Kant.
  • Ainda que o mundo não mude, os homens mudam e, por isso, a ciência muda com os homens. Portanto, as leis científicas não podem ser atemporais… diria Hegel.
  • O mundo muda, meus senhores… diria Marx.

Curiosamente, o estalinismo, ao preocupar-se demasiado com a crítica de Marx a Hegel, não percebeu o papel deste como intermediário da crítica a Kant. Assim o combate ao idealismo de Hegel fez-se a par com o abandono do historicismo que Marx tinha herdado de Hegel. Podemos observar este equívoco na importância que a teoria das cinco fases do desenvolvimento histórico adquiriu no pensamento marxista da III Internacional. Esta lei geral da evolução histórica esquecia uma recomendação que Marx deixou em Introdução à crítica da economia política: o que há de geral na história é muito menos determinante do que aquilo que há de particular em cada momento histórico. Aquilo que era secundário, auxiliar, e que apenas ocupava umas linhas no famoso Prefácio à crítica da economia política (uma breve enumeração das fases do desenvolvimento histórico) tornou-se o elemento fundamental do marxismo da III Internacional.

Isto teve consequências políticas. Valorizar o que é perpétuo na organização da sociedade, como fez a III Internacional a despeito do que disse Marx, é deixar de saber o que mudar na organização social. É permitir-se a mudar somente o único lugar que restou livre: o homem. E, com isto, a III Internacional aproximou-se do pensamento burguês, isto é, de Descartes e de Kant. As coisas tornaram-se eternas; toda a revolução se localizou na cabeça dos homens. Por isso a importância que adquiriu a teoria do homem novo, o que legitimou o emprego da violência em política. Por isso as mortes (ainda que sejam muito menos que as que por aí se falam). Mas por isso também a incapacidade de mudar as estruturas e as semelhanças na organização de uma empresa na Europa e na URSS.

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28 de Dezembro de 2011 - Posted by | Ideologia | , ,

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