Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Saída do euro

A esquerda brasileira publicou ontem um artigo onde via como única saída para a crise grega o abandono do euro. Por coincidência, no mesmo dia, o governo grego jogou com a ameaça de sair do euro para fazer ceder a Comissão Europeia. A ideia tem barbas, e houve quem a defendesse, à esquerda, dizendo que essa é a vontade dos trabalhadores europeus. E certo que o euro atrela os países da União Europeia a um projeto capitalista neoliberal. É certo que põe em causa a soberania nacional. Mas não é isto resultado de “[um]a tendência staliniana de sempre abolir, quanto possível, todas as mediações, e a de instituir uma conexão imediata entre os fatos mais crus e as posições teóricas mais gerais” (Lukács)? De uma observação geral, ainda que verdadeira, desconectada de outros elementos do contexto, retiram-se decisões imediatas? Certamente elas estão corretas do ponto de vista estratégico. Mas duvido do seu acerto tático!

Para explicar o meu ponto de vista adiciono apenas três mediações àquela reflexão. Confesso, entretanto, a minha incapacidade para mais. Primeiro, a concentração da produção da zona euro na Alemanha, produto de políticas económicas pensadas na Alemanha, que teve como consequência a desindustrialização de Portugal e certamente dos restantes países periféricos. Segundo, a transição de uma economia puxada pela construção civil para uma economia puxada pelas exportações, acompanhada pelo escoramento da banca pelo Estado enquanto se dá essa transição (a meu ver, impossível). Em terceiro lugar, um contexto político favorável à extrema-direita, uma vez que podem formular o seu discurso recompondo retalhos do discurso dominante, enquanto que à esquerda é exigido a crítica deste discurso no sentido filosófico do termo. Neste sentido, vale a penar que nos perguntemos sobre o significado da recusa do euro pela maioria da população europeia.

Do meu ponto de vista, o choque económico e social provocado por uma saída do euro, mais do que relançar a economia, se arrisca a lançar os países da Europa do Sul no caminho do fascismo. Abandonar o projeto neoliberal europeu é necessário. Mas não devemos trocá-lo às cegas por um projeto nacional-fascista. Imediatamente, taticamente, me parece mais importante usar a ameaça de abandonar o euro para alterar os objetivos de política económica do país. Temos um Orçamento de Estado empenhado (no duplo sentido) com a manutenção da liquidez da banca privada. O que devemos exigir é um OE direcionado para a reconstrução da industria nacional… para isso, deixando falir a banca privada e colocando liquidez na economia através da banca do Estado.

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4 de Janeiro de 2012 - Posted by | Economia, Europa | , ,

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