Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A maçonaria

Diz o povo: zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. O problema é que o povo sempre deu mais importância às verdades que às razões da zanga das comadres. O que se diz, no fim de contas, esconde o que fica por dizer e, sobretudo, as razões porque umas coisas são ditas e outras não. Daí que, quando se descobrem novas verdades, a minha pergunta é: porque se zangaram as comadres? Talvez respondendo a ela eu consiga inferir, a partir do que se diz, o que não se diz.

As recentes denuncias da influência da maçonaria (ver aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, a título de exemplo), que tiveram início como a Grande Investigação do DN, deve ser lida da mesma maneira. Porque todas estas revelações têm de ter alguma briga por detrás.

Permitindo-me a especular, parece-me que o capitalismo, desde Marx, modificou-se. A gestão privada do capital, ainda a forma mais importante de gestão, perdeu terreno para uma gestão social e de classe. O que quero dizer com isto: Por um lado, existe o capital detido por uma família. Por outro, e cruzado com este, existe uma rede de pessoas e empresas que gerem em conjunto certos recursos de capital que não lhe pertencem nem totalmente, nem diretamente. O melhor exemplo são os fundos de pensões: o capital são as poupanças dos trabalhadores; mas o capitalista, quem de facto determina como investir esse capital, é o administrador. O seu salário, esdrúxulo, é somente a forma jurídica sobre o qual o ele recebe a mais-valia do trabalho que aquele capital mobiliza. Como se vê é possível ser capitalista ser ser o dono jurídico do capital, mas sendo quem põe e dispõe de fato. No meio caminho e o caso mais geral os negócios que jamais se poderiam realizar sem a articulação prévia entre várias empresas e/ou empresas e o Estado.

Se, no tempo de Marx, o Estado era o comité da burguesia, hoje a situação é mais complexa. Por um lado, os trabalhadores conseguiram abrir espaços, se não no governo, pelo menos no parlamento, em alguma legislação e certamente em alguns grupos de trabalho ministeriais. Por outro lado, o comité da burguesia tornou-se mais complexo. Hoje não inclui apenas o Estado, mas inclui redes de “troca de influencias” que incluem não apenas maçonaria e grupos semi-secretos como o Bilderberg, mas também centros de estudos que funcionam com think-tank. Assim, parece-me, para começar, que devemos entender os salários elevados que andam por aí, não como uma forma de corrupção, mas o a forma de distribuição das mais-valias garantidas pelo capital partilhado, não pela família, mas por pelo menos uma fração da classe burguesa.

Mas é neste contexto que devemos também perguntar-nos: porque hoje se denuncia tanto a maçonaria? A minha hipótese é a seguinte. Se estou certo que hoje em dia à uma substituição da fração burguesa que comanda os destinos de Portugal, concretamente, da construção civil pelos exportadores (ver aqui), é também de esperar que se difamem as suas plataformas de coordenação. A maçonaria portuguesa sempre foi muito permeável aos interesses da construção civil (ver DN 12/11/2011, p. 13). Portanto, eis uma razão plausível de porque as comadres se zangaram e aparecem estas verdades.

Mas que ocupará o lugar da Maçonaria? Certamente alguém que possa cumprir as mesmas funções de gerir aquilo que não pode ser gerido de dentro de cada empresa! Alguém que possa dizer como o que fazer com tudo aquilo que ficando fora de portas das empresas é crucial para o o sucesso das empresas. Ora, não me parecem ser outros que certas fundações, como esta que, na minha opinião (expressa aqui), teve um papel crucial em levar Passos Coelho ao poder.

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10 de Janeiro de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , ,

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