Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Jornalismo e ideologia

Ando numa nova onda: a de expressar teoricamente os princípios da minha análise. Faço-o porque, parece-me, que é a intermediação da filosofia que separa o marxismo do nacional-fascismo. E isto tem tudo a ver com o que quero dizer a seguir. Quero falar do jornalismo incapaz de ouvir as suas fontes. Que, como anotei aqui, substitui, no discurso do Jerónimo de Sousa, ‘interesses de classe’ por ‘interesses egoístas’ sem dar pela diferença. Que ouve “No topo da corrupção está o Estado” quando Ana Morgado fala “E nas zonas de risco temos, no topo, o Estado”. Aliás,  frase de Ana Morgado não diz nada. Sobretudo porque acrescenta, logo a seguir, a definição de corrupção: “enquanto captura das funções económicas, sociais e políticas do Estado”. Na prática, ela disse: o maior risco de corrupção encontra-se na própria corrupção.

É fácil entender que nenhum jornal entende melhor o Jerónimo de Sousa e transcreve melhor o que ele quis dizer que o jornal Avante!. A notícia será tanto mais fiel à declaração original quando maior for a afinidade entre o político que profere a declaração e o jornalista que a rescreve. (Ainda que se limite a transcrever, pelo menos corta). Então para estudar este fenómeno de forma materialista e dialética devemos, respetivamente, identificar a posição social (classe/ fração de classe) a que pertencem os jornalistas e, seguidamente, o modo como esta posição estabelece as condições de acordo com as quais ele ouve, , fala e escreve.

O jornalista é antes de mais um membro da classe média letrada; um trabalhador de colarinho branco, que vive da sua especialidade. Como toda a classe média, despreza o dinheiro (a preocupação quotidiano do populacho), como forma de distinguir-se de um operário indiferenciado, e (in)consequentemente nega a sua condição de trabalhador. Sendo uma classe média que se passeia nos corredores – mas nunca nos salões do poder e, aos olhos do poder, não passa de um pedinte, é ainda mais radical que os seus pares. Por isso, para o jornalista a ética é a medida de todas as coisas. Se estamos em crise é porque temos políticos corruptos e empresários mesquinhos! Por isso, sempre que alguma pessoa relevante – socialmente acima deles – diz algo que se aproxime disto, eles ouvem o que gostariam de ouvir. É por isto que cometem os erros com que abri este texto.

A gravidade da situação é que os jornalistas, hoje em dia, funcionam como os intelectuais orgânicos das classes baixas/trabalhadores. Estes querem saber, sobretudo, onde para o seu dinheiro. Com menos formação, pouca informação e menos tempo ainda para se (in)formarem, dependem de outros para terem uma opinião. Infelizmente, Gramsci foi mal lido: ele sabia que nem sempre – a maioria das vezes – os intelectuais orgânicos lideram as massas para uma revolução. Estes, pelo contrário ensinam-lhes que o problema foi a corrupção e agora temos de sofrer todos as consequências da falta de ética de alguns. O jornalista continua desdenhando, embora cada vez com mais dificuldade, a questão do dinheiro. Mas o povo ouve os jornalistas e grita aos políticos: ladrões. Daí para a defesa de um político honesto, “honestíssimo como Salazar”, é um passo. Afinal como dar conta da honestidade de um político, isto é, do seu carácter pessoal, se não se conhece nenhum político pessoalmente?

Para o marxista ortodoxo o problema não está na ética. O problema está numa economia que, devido à propriedade privada e à concorrência, necessita de fazer o impossível: crescer continuamente. Quando a produção excede a capacidade de compra da população, o capitalismo só pode baixar salários. Inútil será dizer o que acontece às vendas quando se baixam salários.

O marxismo não é uma ideologia, mas um método para chegar à verdade. Ideologia é o pensamento burguês, do jornalista e do trabalhador de extrema-direita, que cujo modo como vê a política é decretado pela sua condição social ou de classe. O marxismo é um método para livra-se deste decreto. O marxismo somente é ideologia, na medida em que a sociedade comunista não é o fim da história, mas o fim da pré-história. Nesse momento nos mostrarão que a nossa verdade, mas verdadeira que a ideologia burguesa, é também ela uma ideologia quando comparada com as verdades que as futuras gerações têm para nos demonstrar. (Perdoem-me a conceção linear da história. Sei que os caminhos são oblíquos. E, às vezes, me parece que hoje estão dadas as condições de voltar para trás).

Os marxista, permito-me a acrescentar, atualmente, apenas falham num aspeto: esquecem que o marxismo é um método para livrar-se da ideologia burguesa. Creem que é uma ideologia tão fácil de adotar como a burguesa. Basta decidir, creem eles. E não compreendem porque os outros não tomam essa decisão. Ora, a resposta é simples: porque o domínio do materialismo dialético não é uma opção, mas produto de um investimento no estudo da filosofia.

Espero que tenha ficado claro porque disse, logo de início, que é a intermediação filosófica que separa o marxismo do nacional-fascismo.

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12 de Janeiro de 2012 - Posted by | Ideologia, Portugal | , ,

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