Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O não-dito sobre a crise

“Na zona euro, por cada aumento de dez dólares por barril no preço do petróleo, há uma contração de cerca de 0,5% do PIB” – afirmou António Costa e Silva ao jornal de economia do DN. A pressão diplomática sobre o Irão continua a aumentar, o que porá em risco, pelo menos a curto prazo, o escoamento do petróleo de dois dos maiores produtores do mundo: o Irão, obviamente, e a Arábia Saudita (ver a entrevista de Costa e Silva).

Mas as guerras pelo petróleo, já antigas, não terminam por aqui. Um artigo de Carlos Carvalhas conta-nos e seguinte (disponível aqui):

Os recentes ataques de Fundos Americanos a bancos europeus, nomeadamente franceses, deixando-os desprovidos de dólares, o que fez baixar a sua cotação e notação, bem assim como a posterior intervenção coordenada dos Bancos Centrais, inserem-se na estratégia anglo-saxónica de enfraquecer o euro e o sistema bancário europeu e de mostrar ao mundo a importância do dólar. Os bancos europeus tinham euros mas não tinham dólares e não conseguem financiar a compra do gás, do petróleo, por exemplo!

A guerra entre o euro e o dólar é antes de tudo uma guerra por quem controla o valor dos contratos de transação internacional. O euro começa a tornar-se moeda de reserva dos países asiáticos. Assim, os Estados Unidos da América perdem, vinham a perder para a União Europeia, a capacidade de interferir (via valorização ou desvalorização da moeda) não só na capacidade negocial destes países asiáticos, como o custo das matérias primas internacionalmente negociadas.

Isto tudo num contexto em que, desde 2004, a inflação mundial é pressionada pelo aumento da classe-media nos BRICs, desacelerando, ainda mais, a economia ocidental. A concorrência entre países capitalistas ou, mais precisamente, entre moedas, reatualiza a obra de Lenine O imperialismo – fase superior do capitalismo. E o papel que a China desempenhará, que sem dúvida se concentra mais no plano económico que no militar, me leva a crer que não se anuncia nem uma 3.ª Guerra Mundial, mas algo novo, como uma 2.ª Guerra Fria sem a propaganda dos dois lados.

Toda esta análise precisa ainda de resolver uma questão. Estamos face a uma crise mundial e uma contração global do capital ou a uma crise regional com uma contração parcial e um maior deslocamento do capital para outras paragens, os BRICs? A China e a Índia parecem estar a ser capazes de puxar pelo desenvolvimento económico da América Latina, enquanto produtor de alimentos.

Não obstante, os BRICs, para fazer face à crise do ocidente tiveram de reforçar o papel do consumo interno da economia. O modelo de crescimento é copiado do ocidente: baixos salários e estimulo do consumo a crédito pela classe média, principalmente através do crédito à habitação. Em certa medida, pelo menos no Brasil, foi menos uma política pensada e mais o efeito combinado da perda de poder de compra no “ocidente” e o grande afluxo de capital especulativo ao Brasil. Se a bolha imobiliária rebentar na China (David Harvey se referiu a isso também), rebentará de imediato na América Latina onde o crescimento económico é conduzido pelas obras públicas. Nesse caso, a crise regional (da Europa e EUA) tornar-se-á imediatamente em crise mundial, cujas consequências serão imprevisíveis.

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12 de Janeiro de 2012 - Posted by | Economia, Mundo | , , , ,

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