Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O “PCP” de Raquel Varela

Estou a ler o livro A historia do PCP na Revolução dos Cravos, de Raquel Varela. A tese é simples. 1) O PCP não quis fazer uma revolução a sério, 2) pois o partido seguida as orientações da III Internacional que tinham dividido o mundo em duas grandes áreas de influência. Portugal tinha ficado do lado errado. Por isso 3) o PCP opôs-se aos trabalhadores que queriam uma revolução socialista de facto. 4) A astúcia de Álvaro Cunhal foi aquilo que permitiu que o PCP derrotar as intenções dos trabalhadores. Não vou questionar a grande quantidade de material empírico que Varela traz para a análise. Nem sequer a tese fundamental, que creio correta, de que a radicalização do processo revolucionário deveu-se muito mais à vontade de certas frações de população do que à manipulação do PCP (como afirmam os partidos de direita). Vou, não obstante, a contestar a ideia omnipresente de que o PCP manipulou as massas. E outra, mais clara, de que quando todas as possibilidades estavam em aberto, o PCP optou por não fazer a revolução (ver p. 148).

Nas ciências exatas exige-se a um investigador que se apague da análise. Nas ciências humanas também, mas o processo é mais complicado. Ao apagar-se da análise o investigador leva consigo o locus da sociedade em que se encontra. É certo que Varela não viveu o 25 de Abril. Mas ao apagar-se da análise levou consigo os partidos – o MRPP, o MES e o PRP – que naquele tempo ocuparam uma posição homóloga à que Varela ocupa hoje em relação ao seu objeto de estudo: o PCP. Ela separa corretamente atores representativos (organizações) de atores sociais (classes e frações de classe); mas não os relaciona teoricamente. Isso permite-lhe opor o PCP à classe trabalhadora o que, em poucas palavras, é equivalente a somar quilos com litros. Bastava lembrar-se da existencia do MRPP, do MES e do PRP para saber que o seu viés analítico – a relação tensa entre o PCP e as massas – é na realidade uma resultado de uma dupla tensão: entre o PCP e aqueles partidos e entre a base social do PCP e a base social daqueles partidos. Anular tais partidos implica, inconscientemente, homogeneizar a classe operária e colocá-la no lugar desses partidos e, ao mesmo tempo, esquecer que o PCP têm necessariamente uma base social (ainda que ela possa argumentar – eu discordaria – que não é a classe operária). Do ponto de  vista marxista, que prega utilizar, isto resulta de uma falta de distinção entre os planos objetivo e subjetivo da realidade.

É por isso que Raquel Varela não consegue explicar o sucesso da Intersindical em organizar os trabalhadores no início de 1975. Ela tem razão ao lamentar a falta de estudos empíricos. Mas a hipótese que lança em substituição, a partir dos dados empíricos que, de facto, domina, enferma da omissão do MRPP, do MES e do PRP e consequente homogeneização da classe operária. Ela afirma que o PCP se utilizou de uma confusão entre unicidade e unidade, parecendo crer que se tratou de uma manobra do PCP para utilizar-se da tendência a almejar a unidade da classe operária para criar um sindicato único. As críticas ao partido comunista aqui não vêm de outro lado que da “certeza teórica” do narrador. Ao apagar o MRPP, o MES e o PRP, Raquel Varela toma-lhe as dores. O ponto de vista do ator que desaparece é substituído pela omnisciência de uma teoria escolhida por uma investigadora que comunga dos mesmos valores. A outra face da moeda é opor o tática do PCP à espontaneidade das massas, o maquiavelismo à ingenuidade, um dos erros mais comuns na historiografia para o qual qualquer historiador deveria estar sobreavisado.

Mas a tese fundamental de Raquel Varela é correta – e não é nova. O 25 de Abril foi um Fevereiro de 1917 e o PCP sempre se opôs ao consequente Outubro. Constantino Piçarra já tinha argumentado que o PCP apenas defendeu a reforma agrária a partir do momento em que as primeiras ocupações estavam feitas e já não havia como fazer marcha atrás. Não obstante, este sociólogo define bem melhor o seu objeto opondo a cautelosa direção radicada em Lisboa aos militantes camponeses de Beja que afirmam – e este é o título do seu artigo – “nas nossas terras o partido somos nós”. Mas Varela insiste que todas as possibilidades estavam em aberto: as greves da TAP, da Lisnave e dos CTT é a prova que dá disso mesmo. Entretanto ela conta-nos que, para o PCP, a radicalização excessiva da luta só poderia servir à reação, ao restabelecimento de uma ditadura fascista. Não obstante, a omnisciente teoria lembra-nos que em 1973 o mundo entrou numa crise económica que abria todas as oportunidades – oportunidades essas que o PCP se recusou a aproveitar. A omnisciente teoria apenas se esqueceu da possibilidade de uma intervenção da NATO que assombrou Portugal. Mas aí sou obrigado a dar-lhe razão. Afinal, o recorte do objeto de estudo – o que se olha e o que se deixa de fora – ainda é feito à vontade do pesquisador.

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19 de Janeiro de 2012 - Posted by | História de Portugal, Partidos | , ,

5 comentários

  1. As possibilidades estavam em aberto e SE não fosse o PCP tinhamos ido para o socialismo? Lamento, mas isso não é história, que não pode viver de «ses». Isso é análise política – trotsquista, muito cheia de certezas e esquemática q.b. Ah, e a Reforma Agrária está no programa do Partido pelo menos desde 1965, embora tenha sido, como foi, obra das massas. Mas muitos dos que estiveram na primeira linha era, como é evidente, membros do PCP. Há uma coisa que não entendo: quando o PCP está nas coisas é porque “controla” e “manipula”. Quando não está é porque abandona a revolução e não a deseja.
    Não ter em conta a VERDADEIRA correlação de forças (Portugal não era só a TAP ou a Lisnave) e tomar os desejos por realidade pode ser muito giro em livros, mas na revolução a sério não funciona. Como disse um amigo meu, felizmente que a história não é uma ciência como a aeronáutica, senão a sr.ª VArela nunca poria um foguetão no espaço. Sendo história – com o alto patrocínio de Antónios Costas Pintos, editoras Bertrands e quejandos – pode dar-se ao luxo de todas as balelas que entender…

    Só não percebo como é que um comunista cai nesta…

    Comentar por Vasco | 31 de Janeiro de 2012

    • Concordo contigo! É pena que me tenhas lido com tão pouco cuidado, pois acabou por dizer o mesmo que o post!!! (Admito que a ironia das últimas duas frases do post possa passar desapercebida a quem lê o texto com a habitual ligeireza com que as pessoas se passeiam na internet. De todos os modos, existe até uma autocrítica a este post no segundo parágrafo do outro que tu comentaste antes).

      Comentar por Jose Ferreira | 31 de Janeiro de 2012

  2. O que só reforça a necessidade da luta ideológica, mesmo para quem pensa que não precisa dela. Um abraço.

    Comentar por Vasco | 31 de Janeiro de 2012

    • Olha, meu caro, quando eu vejo as bases do partido postarem no facebook críticas à diretora do PRODER, apontando como principal defeito o facto de usar mini-saia, dou-lhe razão: a luta ideológica é muito necessária! Por isso comecei a dirigir este blog para isso mesmo, nos termos deste post.

      Comentar por Jose Ferreira | 31 de Janeiro de 2012

  3. Desconheço que «as bases do partido» façam isso que dizes… Foram «as bases do Partido» ou algum – ou alguns .- camaradas em concreto? Não é propriamente a mesma coisa..

    Comentar por Vasco | 1 de Fevereiro de 2012


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