Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Das inevitabilidades à censura

Ontem, o meu pai lamentava a fraca mobilização dos cidadãos contra as medidas de austeridade. Da minha parte, já nada me espanta! Nessas coisas continuo a apelar para Gramsci. A crise pode desencadear a luta de classes na medida em que a classe dominante torna-se incapaz de satisfazer as necessidades imediatas das classes subordinadas. Na medida em que o bloco hegemónico, isto é, as frações de classe que controlam o Estado, se dividem quanto às soluções para gerir o país. Mas somente se desencadeará uma luta de classes consequente se os dirigentes das classes subordinadas estiverem disponíveis e forem capazes de orientar moralmente as massas para essa batalha.

Aqui enfrentamos dois problemas. Em primeiro lugar, existe uma disputa pela direção moral das massas. O PCP quer tanto dirigi-las quanto Medina Carreira. Este, creio que honestamente, tenta apenas explicar a sua análise da situação aos portugueses. Não creio que tenha consciência de quão ideológica (por isso Marx chamava à ideologia falsa-consciência) são os métodos e supostos de análise que emprega. Os jornalistas, com a sua ideologia da impacialidade, escolhem e hierarquizam (o político vs o especialista) os seus convidados. Não sabem eles o quanto a imparcialidade os impede de questionar todos os assuntos polémicos – que são os realmente interessantes – e a desautorizar todos aqueles que o fazem (na medida em que só podem fazê-lo rompendo com verdades pré-estabelecidas e, por ende, o mito da imparcialidade).

Mas existe também um segundo problema. Por mais corretos que sejam os diagnósticos da esquerda, a o seu discurso é o discurso do não. O que eles dizem não é diferente do que dizem os partidos de poder. Apenas se distingue a esquerda da direita porque a esquerda avança com um redondo não. Mas isto não retira as pessoas a ideia criada pela direita: a que vivemos numa inevitabilidade.

Isto não é uma exigência à esquerda que avance com propostas claras para sair da crise. Eu sei que as tem e as propostas credíveis são sempre demasiado complexas e técnicas para ser claras quando expostas em cartazes. O que é preciso, não obstante, uma campanha que exponha o quanto todas as decisões do governo são opções. Como um velho cartaz do MST que opunha uma imagem a preto e branco de uma monocultura de eucalipto a uma imagem colorida de agricultura familiar. Que opunha, do lado do eucalipto ‘100% para exportação’ e ‘100 ha = 1 emprego’ a ‘100% para os brasileiros’ e a ’50 ha = 4 empregos”. Na mesma lógica se podia fazer um cartaz opondo o dinheiro previsto para apoiar a banca (12 mil milhões de euros) ao dinheiro previsto, agora na Concertação Social, para apoiar PME’s.

Ou mostramos às pessoas o quanto a política são opções e não inevitabilidades, ou até o contraditório se torna relativamente pouco importante.

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26 de Janeiro de 2012 - Posted by | Ideologia, Sociedade portuguesa | ,

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