Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O nascimento do sectarismo

Terminei de ler o livro de Raquel Varela, A história do PCP na Revolução dos Cravos. Há medida que o livro avança, os erros teóricos na construção do modelo explicativo tornam-se cada vez mais graves. É particularmente triste ler a longa análise do período que vai do golpe de Palma Carlos ao 11 de Março. Os breves comentários acerca da participação do PCP no IV governo constitucional deixam igualmente a desejar. A teoria não serve, a Varela, para modelar os dados; como boa trotskista, ela serve-se da teoria para julgar os atores (ver o segundo erro que lhe apontei neste post).

Não obstante, o seu livro é rico em dados que podem ser reinterpretados por outro marco teórico. As informações presentes no livro permitem compreender a estratégia e a tática do PCP entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro de 75. Aliás, elas permitem até contestar a tese principal do livro (com a qual eu tinha concordado) segundo a qual o PCP nunca quis fazer uma revolução do tipo socialista. Ao ler o abundante material empírico que ela traz, sou obrigado a concluir que a postura do PCP foi guiada por dois eixos estratégicos. 1) Fazer a revolução pela via democrática 2) evitando a todo o custo uma guerra civil. A possibilidade de uma intervenção da NATO e o regresso de uma ditadura fascista foi um risco que Álvaro Cunhal nunca quis correr. Mas, para Varela, a verdadeira razão foi que Cunhal seguiu as orientações recebidas pela URSS e manteve Portugal na esfera de influencia dos EUA, respeitando a partilha do mundo entre a URSS e os EUA acordada em Ialta e Potsdam. A verdade é que não há como separar aquelas conferências da perspectiva de uma intervenção da NATO em Portugal em caso de radicalização do processo revolucionário. Os factos sociais, dizia, Mauss, são totais.

Assim, o PCP estava na corda banda. Precisava tanto de impor às camadas médias da sociedade (representadas no PS) uma política revolucionária; como evitar a todo o custo ações precipitadas e demasiado radicais nos centros operários de Lisboa e mesmo, embora menos, entre trabalhadores agrícolas da Zona de Intervenção da Reforma Agrária (como desejaram, várias vezes, pequenos partidos “à esquerda” do PCP). Isto implicou fazer e desfazer alianças, às vezes de um dia para o outro, ora com o PS ora com os partidos à sua esquerda. Numa época em que a conjuntura podia mudar em poucas horas, o PCP pode manter uma coerência estratégica devido à sua grande flexibilidade tática. Isto foi possível até ao momento em que o PS, com apoio da igreja e todos os sectores de direita, encontra condições para impor ao PCP a difícil escolha: ou o fim da revolução ou a guerra civil. Ao contrário do PCP, o PS tinha tudo a ganhar com um clima que legitimasse a intervenção da NATO.

Mas Álvaro Cunhal era um homem extraordinário. Nem todos puderam ter a sua frieza e perspetiva global durante a revolução. Como chegou a ser escrito em O militante (citado por Varela) o crescimento do partido não foi acompanhado pela devida formação de quadros. Sem uma visão clara da estratégia, muitos militantes foram para as comissões de trabalhadores e criticaram à esquerda os aventureiristas e à direita os reacionários. Mas também engoliram em seco quando o PCP tinha a necessidade de se aliar ora com uns ora com outros. No calor de uma reunião da Comissão de Trabalhadores, é difícil manter a cabeça fria e a perspetiva global. Torna-se impossível não confundir a tática com a estratégia e não esquecer que fazer ou desfazer uma aliança é um meio e não um fim. Certamente, o despudor com que o PCP fez e desfez alianças, tornou-o alvo de injúrias por todos os outros partidos. E, a partir de Junho de 1975, o PS irá isolar ainda mais o PCP, ao avançar com uma campanha anti-comunistas. Aos comunistas só restou a possibilidade de defender a imagem do partido, insistindo no discurso oficial, fazendo com que o partido aparentasse ser um bloco monolítico (fiz um cometário sobre isso aqui), cavando ainda mais o fosso que o separava dos outros partidos.

O sectarismo foi portanto uma inevitabilidade, fruto de uma estratégia correta do PCP, mas que poderia ter sido atenuado por uma melhor preparação dos quadros de base do partido. Por quadros que distinguissem claramente os meios dos fins, capazes de delinear táticas e alianças de acordo com as realidades locais, que pusessem em marcha a estratégia nacional. Por militantes que fossem capazes de fazer caminhar o partido com a mesma maleabilidade tática com que Álvaro Cunhal o dirigiu.

Escrevo isto porque me parece que estamos num momento que coloca desafios muito semelhantes.

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28 de Janeiro de 2012 - Posted by | Ideologia, Partidos | , , ,

4 comentários

  1. Sectarismo, camarada? Que sectarismo? Estar sozinho no plano político pode não significar «auto-isolamento», mas uma aliança anti-PCP que ia da direita à extrema esquerda – que, aliás, ainda se verifica hoje. Aí a unidade tem que ser feita «por baixo», alargando as fileiras do Partido e do movimento unitário quando tal for possível… O livro da Varela é um veneno pegado. Pena que muitos dos nossos o tomem…

    Comentar por Vasco | 31 de Janeiro de 2012

    • Camarada Vasco, as fronteiras que se estabelecem entre dois grupos têm sempre dois lados. Aquele livro, cuja crítica está neste post, permitiu-me encontrar a origem do que vi. Conheço vários sindicatos que tinham 2 comunistas e 3 unitários em 1995 e agora têm 5 comunistas. A leitura do livro de Varela – o material empírico e não o modelo analítico – permitiu-me fazer a génese desse processo, pensando como marxista, isto é, sem procurar culpados (isto é, sem leituras idealistas), mas acompanhando a génese do processo como consequência não prevista das ações de parte a parte.

      A dificuldade de lidar com os Indignados, na qual os militantes do PCP têm uma participação suficiente mas não coordenada, isto é, não como comunistas, é a razão porque achei necessário olhar para a génese do sectarismo. Não critico o PCP por não participar no movimento. De facto, há comunistas a participar e até a dirigir. Critico o PCP por não ser capaz de analisar o movimento. Daí a necessidade que eu tive de compreender as razões do sectarismo… de maneira materialista e dialética.

      Comentar por Jose Ferreira | 31 de Janeiro de 2012

  2. Meu caro, a unidade não é simples aritmética. Falas de sectarismo, mas negas o papel dos comunistas na construção e defesa da CGTP com as características unitárias que tem? Tem perto de 700 mil filiados (membros do Partido são, segundo dados do último balanço 65 mil). O que é isto senão construção da unidade? E as lutas das populações em defesa dos centros de saúde, dos transportes? O que é isso senão construção da unidade?
    Nem sempre é possível a unidade entre cúpulas. Esta, por vezes, é construída apenas pela base. O facto de o PCP poder estar só – no plano partidário e apenas neste plano – não se deve atribuir a falhas, sectarismos e dificuldades do próprio PCP. A conjuntura histórica e as forças políticas e sociais em presença também têm a sua influência. Penso que isto é, também, materialista e dialético…

    Comentar por Vasco | 1 de Fevereiro de 2012

    • Estamos a falar de coisas diferentes. Não é com a articulação na cúpula, mas na base que eu estou preocupado. A desconfiança generalizada do PCP sobre os outros partidos e dos outros partidos sobre o PCP está a crescer e cada vez o partido mostra menos capacidade de lidar com ela. Ora, até agora o PCP limitou-se a pôr a culpa nos outros; e os outros no PCP. Para mim, estas coisas ultrapassam o jogo de culpas. Fazem parte de dinâmicas sociais que ultrapassam a vontade dos indivíduos. Somente quando compreendemos essa dinâmica podemos lidar com esses problemas.
      A construção da CGTP foi um trabalho de grande valia do PCP, um trabalho unitário. Mas recomendo-te um exercício: olha para os delegados sindicais de duas ou três empresas e pergunta quantos não são comunistas! E mais, como o peso dos comunistas evoluiu nos últimos 15 anos.

      Comentar por Jose Ferreira | 1 de Fevereiro de 2012


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