Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A classe média

Acabo de ler o livro Classe média: ascensão e declínio de Elísio Estante. Em primeiro lugar, vale dizer que a atual briga entre dois sectores da burguesia (a contrução civil e a banca nacional contra a burguesia internacionalizada), se traduz numa briga entre duas formas de coordenação: respetivamente, a maçonaria, de um lado, e as fundações e outros think-tanks, de outro. Assim, deve estar-se atento à coincidência entre os recentes ataques à maçonaria e o lançamento da interessante coleção de ensaios da Fundação Francisco Manuel Soares. De modo algum me parece que alguém tenha coordenado ambos os acontecimentos. Não obstante, acredito que ambos são filhos do mesmo fenómeno: a perda de força do sector da  construção civil para os exportadores. Consequentemente, as estruturas erigidas pelos primeiros (a maçonaria) se tornam mais frágeis aos ataques; e as estruturas comandadas pelos segundo começam a aparecer, empurradas tanto pelo sucesso dos seus mecenas quanto pelo espaço deixado livre pelas outras. Independentemente do conteúdo da análise, ela contribui para um disputa entre frações da classe burguesa para a qual ninguém que se considere de esquerda deve contribuir.

Em segundo lugar, tenho alguns problemas com a definição de classes utilizada. A esquerda mais tradicional não faz melhor. As classes existem como coisas; o que está em jogo é que critérios utilizar para distinguir um e outro grupo. Para mim, em certa medida, as classes não passam de uma abstração (ver aqui também). Em certos momentos da história do capitalismo, a taxa de lucro e, por isso mesmo, o capitalismo não poderá ser mantida sem um abaixamento geral dos salários. Nesse momento a sociedade se polariza entre os a favor e os contra, chamem-se proletários e capitalistas, chamem-se 1% e 99%. O pequeno empresário em vias de proletarização encontra-se num lugar ambíguo e o modo como vai agir nesse momento depende da conjuntura política do momento. Assim como a pressa em encontrar soluções, por aqueles 1%, vai depender a mesma conjuntura. E, finalmente, o modo como os 99% vão entender essa crise está igualmente dependente pelas mesmas condições.

Em resumo, é o processo de expressão na política daquela contradição económica que agrupa as pessoas em torno de interesses, e permite que elas sejam classificadas. E elas são classificadas pelos outros e por eles mesmos antes de ser classificadas pelo sociólogo. E pela natureza daquela contradição é natural que sejam duas classes principais em disputa. Mas a existência de outras contradições secundárias coloca outras divisões à sociedade, permitindo falar de outras classes e de frações de classe. (Assim que é um disparate afirmar que a classe média real [calculada pelo sociólogo] é menor que a classe média virtual [aqueles que se reconhecem como classe média]. Em certa medida só existe classe média virtual; o que é real é a contradição entre capital e trabalho. Consequência desta opção de coisificar a classe é o obscurecimento e a reificação da dinâmica económica. O sociólogo faz referência a ela; mas não é capaz de explicá-la. Torna-a algo dado com o qual se deve viver o melhor possível, mas nunca transformar).

Posto isto, vale a pena dizer que a classe média existe na medida em que uma segunda determinante se coloca aquela primeira. Nos momentos em que o capitalismo se expande e, por isso, o lucro e o salário podem crescer ao mesmo tempo, a expansão dos salários não se dá ao mesmo ritmo, gerando uma diferenciação entre trabalhadores. Por outro lado, o maior poder de compra da sociedade permite que trabalhadores invistam em pequenos negócios, situados nos interstícios do capital. Trata-se de uma posição social complexa e pouco estudada, na medida em que o conceito de pequenos burgueses levou os marxistas a analisá-los a partir da contradição entre capital e trabalho que, creio, não serve para os definir.

Expostas estas duas considerações, vale a pena sublinhar a parte interessante do livro. A classe média portuguesa cresceu a partir da década de 1960 e, sobretudo, a partir da Revolução dos Cravos. Mas o que cresceu foi uma classe média estável, dependente do Estado, uma vez que se empregou na função pública: professores, profissionais da saúde e especialistas da administração pública. E foram estes os setores que permitiram o desenvolvimento de outros, como a advogados, jornalistas, etc. Com a contração do Estado, o sociólogo prevê uma homogeneização da classe trabalhadora repentina. Infelizmente eu acredito que uma classe trabalhadora homogeneizada não faz mais rapidamente a revolução que uma classe trabalhadora diferenciada.

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7 de Fevereiro de 2012 - Posted by | Economia, Sociedade portuguesa | , , ,

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