Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A greve da polícia carioca

Na véspera do carnaval, a polícia militar e os bombeiros do Rio de Janeiro convocaram uma greve (ver aqui e aqui também [links adicionados a 13/2]). É necessário não separar esta convocatória da recente greve de polícias em outras regiões do país (ver aqui também). E, além disso, afirmar a política no Brasil não pode ser analisada fora do seu contexto económico: hoje, o país, é um capitalismo que dá certo (ainda que temporariamente, isto é, por algumas décadas, como qualquer capitalismo). Prova disso é o crescimento da classe média. E é esse crescimento dos últimos 10 anos que garantiu que o Brasil não sentisse os efeitos da crise económica que afetou os seus principais mercados de exportação.

Não obstante, nem tudo são rosas. Um dos efeitos do crescimento da classe média foi a inflação. Apesar de algum controlo que o Estado exerce sobre o mercado dos combustíveis, os preços no Rio, para muitos produtos, duplicaram (é o que diz a minha experiência). E o mesmo aconteceu no resto do país. O aumento dos preço dos transportes públicos gerou grandes protestos em São Paulo e menos significativos noutros pontos do país. As greves da política não podem ser entendidas de outra forma senão como mais uma reação a degradação das condições de vida provocada pela inflação. É significativo que sejam os sectores que já estavam na classe média – os polícias – que estão em greve, e não aqueles que recém chegaram aos estratos médios da população.

Enfim, temos um efeito de médio prazo – o crescimento da classe média – que empurra a população e o governo para a direita. É difícil criticar o capitalismo quando ele dá certo e, sobretudo, uma vez no poder, tentar encontrar alternativas. Não fico, por isso, surpreendido quando uma vereadora do PCdoB defende que a solução para as insuficiências do sistema de saúde pública seja o crescimento do sector privado. Por outro lado, temos este efeito de curto prazo (ou pelo menos recente), da inflação, que degrada a qualidade de vida da classe média. Se aquele, sem dúvida mais profundo, empurra o país como um todo para a direita; este traz um sector importante da população para a esquerda.

Mas é preciso ter em conta que é sempre mais fácil ser de direita do que de esquerda. É sempre mais fácil fazer o melhor possível dentro do quadro de possibilidades vigentes, que assumir (e compreender a possibilidade de) a transformação radical (pela raiz) desse quadro de possibilidades. A conjuntura pode ajudar; mas tal empenho radical só poderá ser sustentado por organizações que se comprometam com a manutenção desse empenho, por organizações e partidos de esquerda.

Ora, é neste ponto que a greve da política entra na contra-mão da política brasileira. Se as condições económicas estão na origem das greves, as condições de institucionais não estão preparadas para acolhê-la. A polícia brasileira ainda está muito militarizada e a sua imagem é muito ruim: ligada à ditadura, violenta e corrupta. Da sua atuação da polícia no desalojo do Pinheirinho, São Paulo, (ver aqui também) aos atos de vandalismo na manifestação de Salvador da Bahía, a polícia continua a confirmar esta imagem.

A esquerda brasileira que, como toda a esquerda latino-americana e devido tanto à ditadura como ao processo de  transição para a democracia, é sempre contra o Estado, divide-se. Ora apoia os policiais, trabalhadores, contra esse Estado; ora apela ironicamente à greve eterna dos policiais, que não são mais que os representantes desse Estado. Os mais moderados, ideologicamente até moderados na relação com a polícia e com o Estado, apelam antes a duas coisas. Primeiro, a reestruturação da polícia – contra a sua lógica militar – mas sem vislumbrarem nesta greve uma  oportunidade para conquistar os policiais para defendê-la; depois, pelos aumentos de salários dos policiais (ver aqui e aqui).

Parece-me que, por tudo o que disse, que a posição mais acertada é dizer

estamos do lado de quem nunca esteve do nosso lado!

e acreditar que os polícias são os primeiros interessados numa reforma da instituição que a torne mais respeitada pela população. Pois acredito que essa reforma institucional não se faz contra os policiais, mas com eles. A oportunidade está aí. Oxalá a esquerda a saiba aproveitar.

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12 de Fevereiro de 2012 - Posted by | Brasil, Economia | , , , ,

2 comentários

  1. Muito bom, Zé! Não dá pra ter dúvida sobre em que lado estar. Bem como não dá para ter dúvida, que uma vez desse lado, é preciso disputá-lo para o nosso lado. Afinal, a reforma institucional (e a revolução social, contra o capital) que queremos melhora inclusive as condições de vida e trabalho dos próprios trabalhadores da polícia.

    O que mais tem me preocupado, é que parte da esquerda descamba para o discurso fácil de manutenção da ordem e do status quo, na trilha à direita – muito bem explicada por você – de um capitalismo que “dá certo”; Enquanto a outra não trás na composição de seu apoio a pauta ideológica de transformações radicais (ainda que mediada pela a real situação do país, com efeitos na retórica visando uma interlocução verdadeira). Daí, alguns generalizam e outros fecham os olhos para a reprodução, por pequena parcela do movimento paredista, de práticas que reproduzem e intensificam a lógica institucional da polícia como práxis dos trabalhadores.

    Você sintetizou muito bem qual deve ser nossa mensagem: estamos do lado de quem nunca esteve do nosso lado!

    Ao mesmo tempo que define o apoio, demarca que o apoio é um gesto político que ultrapassa a pauta imediata do movimento.

    Comentar por Renam Brandão | 12 de Fevereiro de 2012

    • Oi Renan, só para deixar claro: acho impossível governar à esquerda numa conjuntura de expansão capitalista. As pessoas pensam a curto prazo; e a transição é custosa. Desse modo só quando partem de uma custosa crise do capitalismo, é possível convencer as pessoas a iniciar uma transição. A direção do PT andou, no controlo do Estado, não tem como velejar a contra-corrente… mesmo que quisesse. Essa situação está, por isso mesmo, a afastar aqueles que querem andar contra-corrente da direção do PT e a deixar ficar (ou a permitir chegar) precisamente aqueles que querem gerir, o melhor possível o capitalismo.

      Enfim, eu não sou economicista. Mas a realidade é-o. E estar no governo num período favorável ao capitalismo está a tornar o PT favorável ao capitalismo!

      Comentar por Jose Ferreira | 12 de Fevereiro de 2012


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