Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Da fuga em frente à marcha atrás

A vinda de Krugman a Portugal coincide com o PS a divorciar-se do acordo com a troika. O tom é dado por Mário Soares, que ora se cala,  mandando um recado ao PS para se calar, ora vem afirmar que a austeridade não leva a lugar nenhum. De facto, e como já disse aqui, a Europa divide-se entre a opção uma economia voltada para o mercado interno – dinamizado pela construção civil e endividamento do Estado e das famílias – e a opção por uma economia voltada para a exportação. O primeiro modelo (um keynesianismo empobrecido) está esgotado. O segundo está longe de dar resultados: a banca está hoje a soro (ver aqui e aqui também). Exportar para onde? Com o decrescimento da economia, a dívida soberana torna-se impagável. Depois de um ano de governação pelo segundo modelo, é significativo que três universidades portuguesas tenham concedido um doutoramento Honoris Causa a um keynesiano. Sinais do tempos.

Sinais dos tempos que refletem uma marcha atrás na austeridade europeia. Apesar das declarações recentes de Merkel e Barroso, a verdade é que, desde janeiro, o crescimento económico começou a ombrear com o equilíbrio orçamental na agenda dos Conselhos Europeus. Acordos europeus que, há uns meses, eram inquestionáveis, hoje são alterados. O G20 coloca a possibilidade de abrir os cordões à bolsa. E o Spigel, jornal alemão que há dois anos atrás pintava os europeus do sul de preguiçosos, questiona agora abertamente a eficácia das políticas de austeridade (ver aqui também). E a Grécia? A possibilidade de uma vitória à esquerda não terá obrigado os líderes europeus a refletir? Não! As mudanças começaram antes do surgimento das sondagens que davam a maioria aos três países à esquerda do PSOK. Mas essas sondagens parecem ter vindo a acelerar essas mudanças. O melhor indicador dessa mudança são as notícias nos jornais e na televisão. Até há pouco, toda a gente falava de austeridade; de há umas semanas para cá, o (des)emprego tornou-se mais importante!

Assumindo que tive razão e foi Bruxelas que colocou Passos Coelho no governo, pode repetir-se em 2012 o mesmo descompasso entre a Europa e o governo português que esteve na origem do calamitoso ano político de 2010. Desta vez a Europa será mais keynesiana de trazer por casa e Portugal mais liberal (ao contrário de há dois anos atrás). O PS, como o PSD há dois anos atrás, já se desalinhou da austeridade para alinhar-se com possíveis novos ventos.

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27 de Fevereiro de 2012 - Posted by | Economia, Partidos, Portugal | , , , , , ,

5 comentários

  1. Concordo no essencial com o que diz, embora também me pareça que o factor de inversão de posições seja a contração generalizada do mercado interno por toda a Europa e não o desemprego, essa é que é a causa, o combate ao desemprego é apenas o meio para estimular o mercado (em sistemas capitalistas vive-se bem com altas taxas de desemprego); compensassem as exportações alemãs e francesas a diminuição da procura interna que dificilmente o desemprego estaria na agenda política.
    Pese embora não seja essa a sua opinião, gostaria de acreditar que as sondagens e previsíveis mudanças eleitorias podem condicionar políticas, ou seja se pela luta de massas, na rua, e outros tipos de acção política, por exemplo ocupação do espaço mediático, maior protagonismo aos e dos intelectuais, etc é possível atenuar o descalabro podemos evitar o descalabro. Se assim não for, a actividade política e a intervenção cívica perdem a razão de ser.

    Comentar por Rui Gonçalves | 29 de Fevereiro de 2012

    • Sem dúvida caro Rui. Estou completamente de acordo com o que tu dizes no primeiro parágrafo – e se necessitei (de facto, necessitei) da tua correção foi porque não fui claro na escrita. Porque o raciocínio é esse: Dois modelos de capitalismo em jogo. Um baseado no consumo interno (esgotado); outro baseado nas exportações (que teima em não dar frutos). O desemprego só é um problema para o primeiro e falar-se nisso na comunicação social representa duas coisas inseparáveis. De um lado, o fracasso dos exportadores, e de outro um último suspiro da fração da classe dominante (construtores civis e banca) que foi dona e senhora dos destinos de Portugal desde o primeiro governo de Cavaco e Silva até ao último de José Sócrates.

      Quanto à minha desconfiança da pressão popular… isso dá pano para mangas. Mas gostava de assinalar que esta mudança no debate europeu precedeu as sondagens gregas e parece-me independente delas. Mas também sei que as medidas de austeridade se devem à pressão popular alemã, a uma opinião pública claramente manobrada pela banca alemã (um manifesto contra os resgates em plenas eleições regionais). Também sei que as posições dos partidos gregos, em que até os partidos liberais desconfiam da austeridade, se deve à pressão popular.

      Para resumir a minha posição sobre a pressão popular digo que as mobilizações de massas só poderão alterar o sentido das opções políticas alterando a razão pela qual essas opções políticas se tomam (isto é, o diagnóstico das causas da crise). Em Portugal isso parece não estar a acontecer, como comentei aqui.

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Fevereiro de 2012

  2. Sobre a forma como entendo o “não” é a negação deste tipo de modelo de sociedade, não me parece que hajam outras possiblidades no quadro vigente. Há dias conversava com uma amiga militante do PS e perguntava-lhe que diferença faria se o partido dela estivesse no poder, tirando não cometer uma ou outra asneira nas que o psd normalmente cai nada acrescentou, se fizesse a mesma pergunta a um militante do BE a resposta não seria muito diferente. Todos estes partido têm a noção que o País está sujeito a uma agenda, imposta de fora. Perante isto que alternativas a apresentar, qualquer uma é um jogo de soma nula. A título de ex. por vezes analiso diferenças de actuação política ao nível dos municípios em função da força partidária, a conclusão a que chego é que, tirando questões de supervisão e controle político e de honradez, aqui as diferenças são quase inexistentes, pois de facto o quadro legal imposto pelo Estado às autarquias não lhes deixa margem para grandes diferenças de actuação, como com a Troika Parece-me pois a política do não a um paradigma de sociedade é necessária. Há é que dizê-lo com frontalidade, em reuniões políticas costumo dizer que é mais eficaz por a nú as contradições do que apresentar alternativas, nós que não perfilhamos uma sociedade orientada pelo e para o capitalismo somos incompetentes para o tornar melhor.

    Comentar por Rui Gonçalves | 29 de Fevereiro de 2012

    • O problema do “não” é que permite manter o diagnóstico. Sejamos honestos: as pessoas hoje acreditam que estamos em crise porque o dinheiro dos nossos impostos e da Europa foi roubado. Agora não há alternativa senão pagar a dívida e, no melhor dos casos, prender os responsáveis. Enquanto isso temos que esforçar-nos para pagar o buraco que ficou!!! Nesse sentido a austeridade é inevitável e dizer não à austeridade é completamente irrealista. Quer dizer… completamente irrealista para quem acredita que estamos em crise porque o dinheiro foi roubado.
      Por isso mesmo é que eu gosto muito do Žižek quando ele diz que não temos só soluções erradas; muitas vezes também temos os problemas errados.
      O problema nunca esteve no que os nossos dirigentes levaram para casa (apesar de ser um facto que levaram). O problema está na própria dinâmica do capitalismo. A economia capitalista funciona como um movimento ondulatório em que a cada época de crescimento segue-se um período de crise. Portanto a solução não pode ser “repor o dinheiro roubado” mas atacar as causas desse fenómeno ondulatório: um modelo de investimento e criação de emprego que depende da existência de especulação!

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Fevereiro de 2012

      • De acordo contigo, por isso é importante dizer “não” ao modelo.

        Comentar por Rui Gonçalves | 29 de Fevereiro de 2012


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