Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

MAS… que porra é esta?

Estive a ler um texto no site da Ruptura/FER, atualmente Movimento de Alternativa Socialista. Trotskistas da LIC-QI, que dizer mais? Um erro da história como afirmava um camarada brasileiro. Já dei nota aqui de quanto uma sua [ex*]-dirigente não compreende Marx. De quanto, para o trotskismo contemporâneo, saber recitar as ideias chave do marxismo não significa incorporá-las. E não faltam provas de um radicalismo barato que, sob pretensão de corrigir a esquerda, não faz mais que glosar um senso comum de esquerda.

Sobre este texto da Ruptura tenho a dizer duas coisas:

1. Estes senhores “marxistas” afirmam que não há margem para um programa keynesiano porque “os milhões de euros emprestados ao país não são para nenhum relançamento da produção e do consumo” mas sim “para pagar os juros leoninos e fazer rolar o mercado da dívida”! Nesse sentido, basta a Alemanha mudar de opinião e de interesses e estava tudo resolvido. Pois o que respondem eles aos liberais gregos? Estes nos dizem: “pedimos [aos eleitores] que apoiem o acordo [com a troika] hoje para que amanhã tenhamos a oportunidade de negociá-lo”. Isto é, pedem aos gregos que permitam a manutenção do país no euro para convencer a Alemanha que está errada.

O movimento Ruptura parte do princípio que não existem condições para pôr o keynesianismo em marcha. Mas a verdade é que estamos numa crise do keynesianismo. Em poucas palavras, o keynesianismo gera emprego nas obras públicas para “criar” consumidores que puxem pela industrialização do país. E Portugal viveu 30 anos de keynesianismo: fizemos auto-estradas, pavilhões do Atlântico e estádios de futebol. E só conseguimos puxar pela indústria chinesa. Portanto só a reinvenção da economia poderá tirar-nos dela. É preciso que as maiores empresas da nossa economia sejam centralizadas pelo Estado (isto é, nacionalizar ao invés da privatização em curso). E que essa economia seja controlada por uma política democrática e não pelo mercado.

2. Da sua enorme capacidade intelectual, não perdem tempo em criticar o PCP e o BE, isto é, os partidos com quem desejam aliar-se. Estes partidos “parecem não entender” que “para haver dinheiro que permita aumentar o nível de emprego e desenvolver o sistema de saúde e a escola pública, não se pode permitir que a riqueza gerada no país seja absorvida pela banca nacional e estrangeira!” Só por isso, diz a Ruptura, exigem uma reestruturação da dívida de forma a pagá-la.

Vale a pena lembrar o que demonstra o seu ex-camarada Constantino Piçarra. Quando em 1974 os camponeses de Beja começaram a ocupar terras eles não exigiam a expropriação dos latifundiários. Exigiam apenas que se realizassem as sementeiras do trigo de modo a não ficar desempregados no ano seguinte. Mas com a luta foram-se apercebendo que os latifundiários não tinham interessem em resolver o problema do desemprego no Alentejo; somente em maximizar os seus lucros. Desse modo, em fevereiro de 1975 a reforma agrária tornou-se a bandeira inevitável do movimento. Se, desde o início, o PCP tivesse defendido a reforma agrária, ele não estaria a acelerar o processo. Pelo contrário, estaria a afastar-se das massas.

Há que avisar a Ruptura que a tomada de consciência não é o resultado de uma epifania. Exige organização (que eles desdenham)! Exige tempo de maturação!

* ver comentários abaixo

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20 de Março de 2012 - Posted by | Ideologia, Portugal | , ,

4 comentários

  1. Caro Ferreira,

    O seu post em alguns aspectos até poderia lançar um debate interessante, mas a precipitação e o desejo de mandar a baixo só por mandar, de partir à esquerda só por partir estragam tudo. A importante dirigente do MAS que cita não é do MAS, nunca foi. Foi do Ruptura há uns anos valentes a trás e digo-lhe mais, ficaria ofendida se a conotassem com o MAS. A nós do MAS não nos ofendem essa confusões (deliberadas?), antes pelo contrário, permitem-nos poupar tempo em não responder a quem usa a calúnia e a confusão em vez dos argumentos.

    Ainda assim estou curioso sobre as suas opiniões sobre a dívida (defende a reestruturação, como o BE, o PCP e a capa do Público de hoje?), sobre a unidade da esquerda (defende a manutenção da divisão e do sectarismo e das vitórias do centrão?). Isso sim seria um debate.

    Sem mais,
    Manel Afonso

    Comentar por Manuel Afonso | 20 de Março de 2012

    • Caro Manel Afonso

      Antes de mais obrigado pelo comentário. É sempre bom saber que se é lido. Quanto à sua resposta, apraz-me dizer uma coisa: o tom da crítica foi tomado do texto criticado.

      Quanto a sua pergunta, deixe-me dizer-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, o problema não está na reestruturação da dívida, mas na reestruturação da economia produtiva. Mas, defendo um hair cut no equivalente à alavancagem financeira (92%, se usarmos a média da alavancagem mundial). Como tenho dito aos meus amigos, emprestaram-nos mais do que tinha, paguemo-lhes menos do que devemos. Mas volto a afirmar, como tem dito o PCP, de nada serve defender o não pagamento da dívida senão tivermos um plano para a reindustrialização de Portugal.

      O mais importante é que estou disposto a organizar a luta contra a política atual até com quem não defende a renegociação da dívida: a quase totalidade dos trabalhadores portugueses. E não vou para lá dar-lhes lições; apenas organizar – não com eles, porque também sou um deles – a greve geral de quinta-feira.

      Abraço

      Post script: Aproveito para corrigir a “classificação” que, por equívoco, atribuí a Raquel Varela. De qualquer modo, isso não altera o eixo da minha análise. Aliás, só um preâmbulo, que bem poderia ter evitado, me referi a outra coisa que não o texto criticado. E, finalmente, como se vê neste texto e neste, há até uma sintonia clara entre a Raquel Varela e o MAS.

      Comentar por Jose Ferreira | 20 de Março de 2012

  2. Camarada, só deixar uma pequena nota: a questão de o PCP estar ou não com a reforma agrária é uma falsa questão. Desde o 6º Congresso, com a aprovação do Programa do Partido (Rumo à Vitória) que o Partido se comprometeu com a reforma agrária. A questão era fazer as coisas de forma organizada e estruturada. A mesma questão se colocou quanto à questão da habitação e o SAAL. O PCP nunca esteve contra a construção e a reabilitação, só esteve contra a acção anarquizante das ocupações “espontâneas” que iriam impedir que o processo revolucionário, em todas as suas vertentes, fosse feito da forma mais democrática, sensata e consequente possível. Tivemos reservas, sim, mas apenas quanto à forma. Abraços

    Comentar por Tiago Figueiró | 7 de Abril de 2012

    • Eu não vivi o 25 de Abril. Ainda demorei 6 anos a nascer. Mas toda as analises históricas notam que a expressão “reforma agrária”, estranhamente, não aparece nas teses do primeiro congresso livre do PCP. Mais importante, até 26 de Janeiro de 1975, não há um documento do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas que fale de Reforma Agrária.
      Na verdade, o recuo táctico do primeiro congresso em relação ao Rumo à Vitória é um verdadeira lição de resistência ao aventureirismo. Como me dizia o camarada Pauzinho de Évora, não podemos ir tão à frente que deixamos todo o mundo para trás.

      Comentar por Jose Ferreira | 7 de Abril de 2012


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