Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A impossibilidade do keynesianismo

Num texto anterior expliquei, de modo bastante simples, a tendência de decréscimo da taxa de lucro. Agora quero complicar um pouco. A economia cresce em ciclos que se apresentam (graficamente) em V invertido. O decréscimo da taxa de lucro é constante, mas num primeiro momento compensado pelo grande número de novos investimentos. Taxas de lucro elevadas impulsionam o aparecimento de muitos investidores. Depois de atingir um ponto máximo, o número de novos investimentos já não compensa o decréscimo da taxa de lucro, e o crescimento desacelera.

A questão é: o que permite o lançamento de um novo ciclo económico? Partamos de um caso concreto, do que permitiu, após a crise de 1929, lançar o ciclo económico que começou na década e 1940 e  agora termina.

A) A destruição do investimento anterior, criando espaço para novos investimentos. Isto é, falências, como as que aconteceram na crise e guerras: a II Guerra Mundial.

B) Inovações tecnológicas. Durante a II Guerra Mundial, a bioquímica e a mecânica desenvolveram-se fortemente. Esses conhecimentos de uso militar foram, posteriormente, aplicados à agricultura e indústria.

C) Inovações institucionais, neste caso, o keynesianismo. O keynesianismo era um conjunto de políticas que se destinava a fazer crescer o consumo por três vias. Por um lado facilitava crédito aos empresários, criando instituições que permitiram uma alavancagem financeira sem precedentes. Segundo, transferia rendimentos das mais-valias para o trabalho, pela via das funções sociais do Estado: saúde e educação. Deste modo, apesar de reduzir as mais-valias no curto prazo, mantinha níveis de consumo elevados e, desse modo, a tendência ao decréscimo da taxa de lucro foi bastante atenuada. Em terceiro lugar, garantia consumidores à economia: funcionários públicos; reformados; e pedreiros ocupados nas obras públicas.

Este gráfico retirado daqui permite ver que a economia portuguesa faz um V invertido a partir da segunda metade da década de 1950 e atinge um pico nas vésperas da revolução. Este segundo gráfico, surripado ao Pedro, mostra o V invertido da construção civil em Portugal. Nota-se que a primeira metade da curva corresponde à década de 1990 e a segunda metade, declinante, à de 2000. Sem dúvida o primeiro gráfico expressa a produção nacional; o segundo o consumo num setor económico. Não obstante, consumo e produção, em macroeconomia, são a mesma coisa pois aquilo que não se vende é lixo.

Estes gráficos permitem-me três observações:

A) O crescimento português começa com mais 10 anos de atraso sobre o crescimento mundial e atinge o seu pico com a crise do petróleo de 1973, isto é, a par com a economia internacional. Se devemos algo ao “mago das finanças” são 10 anos a perder tempo!

B)  A partir de 1975 (seguramente de Novembro de 75), Portugal começa um processo lento de desindustrialização, onde o consumo era mantido por medidas pensadas a partir do keynesianismo. O crédito continuava a ser facilitado. Mas como os investidores tinham pouco interesse nele – devido ao decréscimo das mais-valias esperadas – os bancos direcionavam-no para o consumo. Por outro lado, as medidas de transferência de rendimento começam a ser paulatinamente retiradas: em Portugal mais tarde; no mundo logo a partir da década de 1980. Estes dois “desvios” do keynesianismo foram feitos para contrariar o declínio tendencial da taxa de lucro a partir da crise do petróleo. Nisto, Portugal segue o caminho do ocidente.

C) A terceira inovação institucional keynesiana também se reconfigurou. O principal modo de “criar” consumidores para “aquecer” a economia passou a ser o apoio à construção civil. Este setor tem a vantagem de ser aquele que, para a mesma quantidade de capital investido, gera mais emprego. Emprega pedreiros  e motoristas (no transporte de materiais de construção). Mas também se viabiliza uma grande diversidade de pequenos negócios e centros comerciais de que os pedreiros, motoristas e funcionários públicos são clientes.

Por esta razão se construiram as auto-estradas de Cavaco e Silva, a Expo-98, os estádios do Euro 2004, a ponte Vasco da Gama. Por esta razão se acordaram as PPPs (a maioria são na construção, conservação e manutenção de estradas). Por esta razão se propôs um TGV! Mas também por esta razão apareceram os créditos bonificados à habitação cujos efeitos sobre o setor podem ser deduzidos do segundo gráfico.

Em resumo, o keynesianismo teve dois momentos. No primeiro, os capitalistas prescindiram de parte das suas mais-valia para sustentar medidas que atenuavam o decréscimo tendencial da taxa de lucro. A crise do petróleo, pese ter acontecido por uma decisão política, põe a nu que essas medidas estava esgotadas. Desde então o keynesianismo entrou numa segunda fase. A taxa de lucro só pôde ser mantida prescindido paulatinamente dessas medidas, isto é, recuperando as mais-valias que ela cobrava. Os Estados deixaram de cobrar impostos e passaram a endividar-se. Essa segunda fase terminou em 2008.

Portanto, apelar ao keynesianismo para resolver a esta crise do capitalismo, que é também uma crise do keynesianismo, é não entender o que realmente se passa na economia.

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21 de Março de 2012 - Posted by | Economia, Mundo | ,

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