Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Contra a unidade da esquerda

Este artigo não passa ainda de uma tentativa de pôr no papel uma intuição. A intuição de três factos. Primeiro, de que colocar a unidade da esquerda como objetivo político implica substituir qualquer outro debate por um debate a priori e interminável sobre as fronteiras da esquerda. Portanto, implica adiar todos os outros acordos à espera de um acordo prévio acerca de quem é de esquerda – e portanto deve estar presente no início de qualquer os outro debate, pois nenhum deve começar sem que estejam todos – e quem não é.

Segundo, que os benefícios da unidade da esquerda são apenas de caráter eleitoral. Na ação de massas nada indica que a unidade aumente a capacidade de ação. A racha, no Rio de Janeiro na década de 1960, entre o PCB e o PCdoB levou à aceleração das ocupações de terra pela Reforma Agrária. Os dois concorriam acerca de quem tinha mais ocupações.

E terceiro, a divisão da esquerda é resultado da sua compreensão do mundo. Existem três linhas de tensão que conformam a esquerda. Uma entre a meritocracia elitista e o democracia naïfe, que analisei aqui. Outra entre o liberalismo moral e o socialismo económico, como expus aqui. E, finalmente, a tensão entre a crítica da economia e a crítica do Estado que, em grande parte, decorre da primeira tensão. A divisão da esquerda é a decantação dos diversos grupos de pessoas de esquerda ao longo destes três eixos. Ela existe irremediavelmente dentro e fora dos partidos, num e noutro caso com os mesmos efeitos em toda a linha… exceto nas eleições, como decorre da minha segunda intuição.

É a partir das suas divisões e das suas guerras internas (como expus na análise da primeira tensão) que a esquerda compreende o mundo.  Talvez eu seja demasiado estruturalista! Pois parece-me que a estrutura política da esquerda, isto é, as suas divisões, é a sua lupa para compreender o mundo. Portanto, pôr de lado essas divisões era tornar-se incapaz de compreender o mundo.

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3 de Abril de 2012 - Posted by | Ideologia |

5 comentários

  1. A filosofia é sem dúvida o seu forte. Mas não se vive de filosofar. Quero dizer com isso, que chegar ao poder para por fim modificar a forma de governar seria ou não uma prioridade para o José Ferreira? Li uma vez que vc defendia, com muita razão, que devemos, como eleitores escolher, não entre o plitico menos corrupto, mas escolher pelo partido que governe de forma socialista, ou seja, protejendo o povo e aumentado por fim o FIB do país…eu disse bem: Felididade Interna Bruta do povo.
    Não acho correcto virmos agora querer parecer politicamente correctos, evitando a união das “diferentes” esquerdas. Afinal cada esquerda deve ter seus defeitos e qualidades. Talvez uma possa ajudar a outra e juntas conseguir o que finalmente deveria ser o desejo de todas: GOVERNAR

    Comentar por Hanky | 3 de Abril de 2012

    • Hankat, a questão pode colocar-se de outro prisma. Um partido de esquerda tem duas hipóteses: ou constrói uma base social de esquerda como forma de chegar ao governo (coisa que está longe de acontecer em Portugal); ou apela ao voto e, por falta de apoio social, é obrigado a governar à direita. Foi isto que aconteceu com o PC Italiano na década de 1960 e está agora a acontecer com o PT no Brasil.

      Neste sentido, valerá a pena tentar ganhar as eleições sem qualquer preocupação em tentar mudar a disposição das massas? Se a prioridade é trabalhar a disposição das massas, será que a unidade da esquerda se coloca da mesma maneira? A minha resposta a esta segunda questão é o terceiro ponto do comentário. Acredito que as divisões internas da esquerda são o microscópio com que a esquerda olha a realidade. Tentar resolver esta divisão somente para ganhar as eleições é estilhaçar o microscópio pelo qual nós queremos que as massas aprendam ao ver.

      Neste artigo tento mostrar como as divisões da esquerda ajudam os seus militantes a compreender o mundo.

      Comentar por Jose Ferreira | 3 de Abril de 2012

  2. A questão em Portugal nem se coloca, uma vez que só existe um partido de esquerda com base social de classe. Tudo o resto coloca-se no âmbito da construção de uma frente popular que procure opôr todas as camadas sociais ao capital financeiro monopolista, aliando-as à classe operária. Essa unidade é algo muito mais profundo e consequente do que apenas uma unidade entre “esquerdas”, uma vez que, exceptuando o Partido, todas as organizações de “esquerda” são produtos da pequena-burguesia e fruto da sua incompreensão de que não existe uma saída para si enquanto protagonista: ou se alia à classe operária no seu projecto de construção de uma Democracia Avançada na qual terá lugar, ou, ainda por incompreensão, se alia ao grande capital, que é neste momento o seu verdadeiro inimigo, que a está e continuará a devorar no seu banquete de pequenas e médias empresas e o seu frenezi de proletarização. O nosso papel será, mais do que cruzar bandeiras, ajudá-los a compreender o papel da classe operária e do seu Partido e a necessidade de uma frente popular transversal a todas as camadas anti-monopolistas. Existe já, nesse sentido, uma coligação de unidade democrática: a CDU, na qual são convidadas a convergir todas as camadas que, não tendo exactamente os mesmos objectivos que a classe operária e o seu Partido, têm com ela em comum o objectivo central de derrotar o capital monopolista e o imperialismo. Só a unidade do povo português pode voltar a destruir os monopólios que os sucessivos governos vêm reconstruindo e colocar os sectores estratégicos do país ao serviço do seu povo.

    Comentar por Tiago Figueiró | 7 de Abril de 2012

    • Meu caro Tiago!
      Vc está cheio de certezas. Eu estou cheio de dúvidas.

      Tenho dúvidas em como chegar à maioria da classe operária que não está organizada. Lembro que o sector económico mais importante de Portugal é a construção civil e não conheço nenhum sindicato forte nessa área.
      Tenho duvidas que a extrema-direita não esteja a crescer na classe operária. Tenho duvidas que seja correcto dizer que a extrema-direita é controlada pela direita. Pelo contrário, parece-me consequência das políticas de direita, mas uma consequência não planeada.
      Tenho duvidas sobre o que é a pequena burguesia. Parece-me não haver fundamento marxista para falar nessa classe. E, portanto, como compreender o que irá acontecer à massa proletária num momento em que a classe média está a ser jogada para baixo?

      É por isto que considero a construção da unidade da esquerda uma perda de tempo. Vejo tantos problemas para resolver… muito mais prioritários!

      Comentar por Jose Ferreira | 7 de Abril de 2012

      • Eu não disse que a extrema-esquerda é controlada pela direita: disse que é fruto da pequena-burguesia, que estando a sofrer um dos maiores ataques aos seus interesses de classe, por via do vertiginoso processo de centralização da capital em curso, tende a radicalizar-se e a sentir a necessidade de mudançar revolucionárias, mas… não sabe como!
        O sector da pequena-burguesia a que me estou a referir são os estudantes e intelectuais pequeno-burgueses, progressivamente proletarizados, mas ainda pequeno-burgueses, e por isso com sérias dificuldades em assumir uma perspectiva de classe. A sua radicalização é uma consequência da política de direita, a sua desorientação ideológica é promovida por todos os instrumentos da política de direita, nunca sugeri o contrário.
        Quanto à pequena-burguesia no seu todo, em portugal, falamos dos pequenos e médios empresários, comerciantes e industriais. Eu vivo no Porto e essa camada da população tem aqui grande expressividade, e é uma importante tarefa ajudar esses portugueses a perceber que os interesses defendidos pelos executantes da política de direita são contrários aos seus. Tem tanto fundamente marxista que constitui até tarefa revolucionária, esta de aliar camadas intermédias à classe operária, a construção de uma ampla frente popular antimonopolista.

        É mais prioritária a unidade popular, sem duvida. E agora vou para o call center, cumprimentos.

        Comentar por Tiago Figueiró | 22 de Abril de 2012


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