Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Leninismo e anarquismo

Depois de um debate com membros do PAGAN, considero precisar de espaço para deixar clara as diferenças que separam o leninismo do anarquismo. Comecemos pelo princípio: a divisão essencial está na articulação entre a concepção de Estado e da forma de organização. Essa análise já a fiz, em parte aqui. Não obstante, começo a chegar à conclusão que essa diferença ideológica tem efeitos da estratégia até às mediações tácticas.

Para  o leninista o Estado não é, apesar de tudo, o órgão de repressão da burguesia. Mas é menos… ou talvez mais que isso: o Estado político não é mais que o resumo oficial da sociedade civil, como diria Marx. Mesmo na Guatemala onde o controlo da elite económica sobre o Estado é bem maior que em Portugal, para entender as nuances do debate político é necessário conceber o Estado como a correia de transmissão da força de uma classe sobre a outra (ver aqui uma versão prévia de um trabalho feito por mim recém publicado). Que diremos então do Estado de Bem-Estar europeu? Talvez devêssemos aceitar a definição de Jessop que vê o Estado como a cristalização das lutas de classes passadas.

Pelo contrário, os anarquistas concebem o Estado equivocadamente como o representante da elite dominante. É, infelizmente, uma expressão do Manifesto comunista que reproduz de modo mais feliz a concepção anarquista do Estado: ele é o comité de administração dos negócios colectivos da burguesia. Essa não é, não obstante, a concepção de Marx sobre o Estado nos seus trabalhos menos panfletários.

Assim, duas concepção de Estado, redundam em duas concepção de luta: a luta anarquista contra o Estado e a luta leninista pelo Estado. Poderão imaginar-se pontos convergentes nestas lutas. Mas elas divergem logo a partida na sua forma, isto é, na maneira de dirigir-se ao Estado e, mais concretamente, à polícia. Por muitos que sejam os confrontos entre a polícia e as massas, os leninistas, do mesmo modo que não lutam contra o Estado também não lutam contra a polícia. De outra maneira, como acreditar que a PSP é uma instituição burguesa e a Associação Nacional de Oficiais não?

(Concepções equivocadas do tipo anarquista deixaram a esquerda brasileira completamente perdida quando as polícias baiana e carioca entraram em greve).

Se, de alguma maneira, a luta de classes pode ser comparada ao jogo da corda, o Estado é a corda. E os anarquistas, então, são aqueles que, saindo derrotados, colocam a culpa na corda.

Posto isto, ainda que a divergência fundamental entre leninistas e anarquistas esteja num patamar muito distante do trabalho concreto, como propor convergências se essa diferença se coloca na forma de organização prática de qualquer luta concreta ??

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6 de Abril de 2012 - Posted by | Ideologia, Portugal | , ,

7 comentários

  1. Cara, você nem fez uma análise do que é o Estado e afirma ser o Estado um jarro vazio a ser preenchido por uma ou outra classe. O Estado Capitalista é a junção do Governo (aqui referido por você como Estado) e a Burguesia (classe formada pelos monopolistas e oligopolistas). Infelizmente o espaço é curto para relatar como o governo sustenta e faz progredir o modo de produção capitalista, nada tendo a ver com o estado de bem-estar social, este, inclusive, totalmente compatível com o capitalismo, mas de vida curta por causa das crises estruturais da economia.
    No mais, existe uma diferença extraordinariamente grande e que faz o anarquismo se diferenciar de qualquer forma de socialismo já no começo da existência de ambos, não é somente uma birra contra o governo de um lado e a admiração do outro, o que dá corpo e os torna irreconciliáveis é a petulância de Marx em achar que a economia pode ser controlada centralmente. Esse tipo de sugestão é uma aberração, embora seja muito bem aceita pela burguesia como forma de sustentar um sistema ineficiente e auto destrutivo.
    E já que você termina falando de luta concreta, saiba que luta concreta não significa uma enorme organização nominada sob uma insignia ideológica. Como os anarquistas muito bem sabem, a história é o domínio da contingência, as revoluções acontecem a seu tempo, na medida em que o velho sistema dá seus sinais de morte. Talvez os socialistas devam tentar mais um vez sua revolução ditatorial antes da ruína total do modelo de produção tipicamente capitalista, também adorado e amplamente adotado pelos discípulos de Marx. Só então um modo de produção mais democrático e não usurpador poderá dar continuidade aos sonhos da humanidade.

    Comentar por mariniel | 28 de Abril de 2012

    • Caro Mariniel

      É difícil, para um marxista que o seja realmente, empreender um debate descontextualizado. Esse post está muito preso ao debate actual em Portugal acerca da colaboração ou não com a polícia de modo a que as manifestações, contra as políticas de direita, corram sem violência. A CGTP tem provado que, respeitando a lei da manifestação, é possível chegar ao fim sem violência. E o efeito político da manifestação, por outro lado, depende menos da escaramuça com o policial e mais do número de participantes. Dizer que a manifestação em que o policial bateu era mais à esquerda é uma vaidade anarquista enganadora muito de moda em Portugal.

      Posto, isto, respondo ao seu comentário.

      Em primeiro lugar, não tentei fazer aqui um artigo científico. De qualquer modo parto para um entendimento do Estado que eu mesmo usei num artigo científico (e que linkei e voltou a linkar) muito próximo do Jessop, mas também de Dagnino, no qual o Estado surge como um lugar da luta de classes e não como o instrumento de uma classe. Ou, como define Marx em A miséria da filosofia o resumo da sociedade civil.

      É esta a diferença entre marxistas e anarquistas que conduz esse texto. Nota-se que vc nem entendeu o que quis dizer e afirma que eu assumi a definição de Estado que de facto atribuo ao anarquismo, mas não ao marxismo: o jarro vazio a ser preenchido por uma ou outra classe. E a isso contrapõe uma ideia de Estado que engloba a sociedade civil, mas só a parte que lhe interessa, a burguesia.

      Pergunta: se o Estado para si se alarga aos monopólios burgueses não se alarga necessariamente, no caso brasileiro, ao MST que está acampado no MDA? Colocar esta pergunta mostra o quanto vc estendeu a definição de Estado de forma interesseira e pouco rigorosa.

      Mas a diferença entre o marxismo e o anarquismo deve também a outro post que fiz olhando tanto para Portugal como para um texto de Ann Robertson. Acho que é um bom embasamento para entender a divisão prática entre marxistas e anarquistas e vai bem além o que vc fala. Pode ler o meu post aqui, mas sobretudo aconselho a leitura do trabalho de Ann Robertson aqui.

      Quanto ao resto, à adoração dos discípulos de Marx pelo modelo capitalista, nem vou dar ao trabalho de contestar. Considerando-me eu um marxista, vejo nele um argumento vazio. Eu não adoro nada porque expurgo a fé das minhas reflexões. Eu analiso! E peço que me leve a sério e me responda debatendo; não acusando-me de fé em deuses fetiches.

      Saudações

      Comentar por Jose Ferreira | 28 de Abril de 2012

      • O caso do MST é ótimo pra ser analisado. O MST entra num contexto em que a expropriação dos latifúndios não é somente possível, mas desejável do ponto de vista da burguesia. O esvaziamento do campo vem trazendo problemas à cidade desde a metade do século passado. A agricultura familiar no Brasil representa mais de 50% dos alimentos consumidos aqui. São culturas não muito interessantes aos latifundiários e os supermercados se aproveitam da fragmentação dos camponeses pra impor uma redução de renda, mesmo num cenário de inflação dos produtos alimentícios.

        Juntando o problema do êxodo rural e a favelização das áreas urbanas, mais o problema da segurança alimentar, é natural entender porque o MST é tão amado e ao mesmo tempo tão odiado pelas elites políticas brasileiras. Só como exemplo os oito anos de governo FHC, do PSDB, partido que levou a cabo o maior projeto neoliberal da América Latina, ou mesmo do hemisfério sul inteiro, assentou mais de1,2 milhão de famílias, enquanto o governo Lula, do PT, dito de esquerda, assentou cerca de 600 mil famílias. Dados de ambos os lados são suspeitos, mas os dados do governo Lula são ainda mais suspeitos por contabilizar legalização fundiária como assentamento.

        E outra, as entidades ligadas ao MST (o MST não recebe repasse direto, pois não tem representação legal, o repasse é feito através de associações ligadas ao MST) receberam do governo, entre 1995 e 2005, pouco mais de 40 milhões de reais, enquanto que as cinco entidades que representam os ruralistas levaram, neste mesmo período, 1 bilhão de reais dos cofres públicos.

        Isso pra mim, nem de longe, se parece com um espaço de lutas. Está muito mais pra um espaço de controle descarado e escancarado. Mesmo os direitos históricos são conseguidos através de possibilidades que beneficiam o capitalismo, tanto como forma de aliviar a superprodução como forma de amansar as massas indignadas e diluir a oposição.

        Durante essa crise financeira os governos liberaram mais dinheiro para as instituições financeiras em um ano do que gastaram com bem estar social em três décadas, isso sem passeata de banqueiro se quer. Sob que ângulo o estado é um palco de luta social? Me parece mais um palco de massacre social. Da mesma forma que não existe luta entre um tamanduá e um verme.

        Quanto a diferença entre marxistas e anarquistas, vejo principalmente uma confiança extremada, do lado marxista, no modo de produção em massa e produção contínua. Uma confiança enorme nos “métodos científicos” de administrar a produção de forma eficiente e justa. São dessas bases que vem a diferença fundamental desde Proudhon, que colocava sua confiança em métodos artesanais de produção, dessa forma liberando a sociedade da necessidade de um estado que sustentasse um modo específico de se produzir.

        Em geral, todas as pessoas tem fé, Marx tinha fé na indústria moderna e esse tema baseou todas as suas teorias e foi o combustível para ele produzir sua magnífica obra. Já Proudhon tinha fé no empreendimento individual do artífice e isso foi seu combustível para propor uma sociedade sem governos.

        Não fui claro em expressar o que considero ser fundamentalmente oposto entre os marxistas e os anarquistas. Mas já corrijo: o tema a que estão comprometidos é a diferença fundamental.

        Comentar por mariniel | 29 de Abril de 2012

    • Caro Marinel

      Vamos começar pelo que estamos quase de concordo. Vc diz que Marx tinha fé na indústria moderna enquanto Proudhom tinha fé nos métodos artesanais de produção. Eu defendi neste post que Marx e os marxistas têm fé na ciência – um elitismo meritocrático – e os anarquistas tem fé na espontaneidade das massas – uma democracia naïfe. Esta oposição é a raiz de toda a esquerda, tendo Stálin numa ponta e Bakunin na outra, com Lénin, Cunhal, Gramsci, Trotsky, Rosa de Luxemburgo, etc. pelo meio.

      Não é por acaso Gérin via a necessidade de juntar o marxismo e o anarquismo como fusão entre a análise da realidade e a utopia.

      Portanto, parece-me que estamos de acordo naquilo em que estamos em desacordo.

      É por isto que estamos em desacordo na concepção de Estado. O marxista não está apenas mais disponível para aceitar a burocracia. Ele está demasiado interessando em entender as pequenas variações dentro do Estado. Marx chegou a definir o Estado como o comité de coordenação da burguesia, mas a definição de Estado verdadeiramente marxista encontra-se em A miséria da filosofia: o Estado é a síntese da sociedade civil.
      Se os Estados deram mais dinheiro às instituições financeiras em um ano que aos serviços públicos em 30 (o que é falso, basta saber 60% do Orçamento do Estado português entre 2000 e 2008 foi gasto é educação, saúde e aposentadoria), isso deve-se à correlação de forças na sociedade civil e no Estado. Se eu juntar os meus colegas de universidade e for disputar uma partida no Engenhão com o Fluminense, não me atreverei a colocar a culpa no campo. Embora possa questionar se o meu valor pode ser comparado com o do Deco numa partida de futebol.
      Entender o Estado como algo tomado a 100% pela burguesia é não entender – ou não concordar com – a luta esquerda europeia pelos serviços sociais: saúde, educação e aposentadoria. Não é isso demandar a presença do Estado nas nossas vidas??

      Sobre o MST vc simplifica o que é complexo… assim como simplifica o conceito de Estado. De facto, a agenda da reforma agrária foi uma agenda burguesa. A reforma agrária foi tomada como condição fundamental para a criação da indústria nacional. Se aumentar a produtividade da agricultura o país não teria matéria-prima para a indústria. E,por outro lado embora nunca tenha sido reconhecido, a burguesia industrial buscava igualmente tirar o tapete à aristocracia agrária que dominava o Estado.
      Mas isto só é válido do final do séc. XIX até à segunda revolução agrícola dos tempos modernos. Com o desenvolvimento da maquinaria pesada, vc deixa de precisar de dividir a terra para ter produções elevadas. E, sobretudo, só sobrevive o fazendeiro que se moderniza, isto é, que se torna um burguês agrícola (no Brasil cunhou-se o termo de agro-negócio).
      Ora, se a demanda pela reforma agrária continua desde a década de 1970 – quando se dá a segunda revolução agrícola dos tempos modernos – é em confronto com a burguesia. E se, com Henrique Cardoso, a reforma agrária acelerou foi porque o MST começou a lutar e logo a seguir o agro-negócio da cana-de-açúcar quebrou. Como diria Gramsci, é quando a burguesia não consegue satisfazer as necessidades imediatas das massa trabalhadora que se abrem as portas a uma revolução.

      (Podemos igualmente ver os limites de uma concepção monolítica de Estado olhando o governo de Miguel Arraes no Estado de Pernabuco).

      Mas centrar-nos nestas nossas diferenças pontuais, é esquecer outra diferença que nos separa – eu de vc. Vc está falando de um ponto de vista que parece ser o de um cientista social. Vê em todo lado algo “bom para analisar”. Eu falo do meu compromisso com a luta da esquerda portuguesa. Hoje a luta, para a qual o anarquistas chamam e organizam passeatas, é pela manutenção de serviços públicos de saúde e pela escola publica que o governo quer privatizar. Ora não é isso defender o Estado?

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Abril de 2012

      • Deixa eu fazer uma pergunta capciosa pra ti. Se o governo entregasse os hospitais e as escolas para cooperativas de consumo de saúde e educação, distribuindo igualitariamente os recursos dos impostos hoje alocados pra esse fim, você acha que isso seria algo desejável? E se for, você não acha que uma desestatização melhoraria a qualidade e a segurança dos serviços prestados aos trabalhadores?

        Eu, pessoalmente, acharia bem melhor poder escolher um serviço de saúde dentre várias opções de cooperativas, recebendo uma grana do governo pra me ajudar a pagar. Nesse caso a luta poderia ser centrada no aumento do repasse de verbas aos cidadãos.

        Vejo que todos lutamos não pelo Estado, mas por um ou outro serviço, que infelizmente está na mão do governo e não conseguimos achar uma alternativa viável pro atendimento de nossa demanda. Daí a sociedade ter que escolher entre o lobo e a raposa pra tomar conta das galinhas.

        Comentar por mariniel | 29 de Abril de 2012

    • É engraçado que o dinheiro para as cooperativas continua vindo do Estado…
      E vc continua partido de suposições. Eu de uma realidade concreta.

      Comentar por Jose Ferreira | 29 de Abril de 2012

      • Sim, claro. Só disse dessa forma pra mostrar o contra-senso. Eu não acho que cooperativas tenham que ser financiadas pelo Estado. O que estou querendo dizer é que o governo oferece falsos serviços públicos e somos levados a crer que participamos dessa festa. Na sua analogia eu não diria que o Estado é o campo de futebol, eu diria que o Estado é o próprio futebol. Por que não jogamos tênis de mesa?

        Comentar por mariniel | 29 de Abril de 2012


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