Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Do acto de contrição à autocrítica

Apeteceu-me reproduzir aqui algo que afirmei num debate com camaradas brasileiros. A palavra autocrítica é bastante curiosa. Marx escreveu “a religião cristã só pode contribuir para que se compreendessem de um modo objectivo as mitologias anteriores, quando se prontificou até certo ponto, por assim dizer virtualmente, a fazer a sua própria auto-crítica”. Qualquer pessoa que entende autocrítica como ato de contrição, reconhecimento de um erro individual passado, deve ficar atónito a ler esta frase de Marx.

Esta concepção erra da autocrítica resulta do equívoco de olhar-se para a crítica como detracção: “pôr defeitos em”. Não é isso que faz Marx ao criticar Ricardo. O pensamento burguês de Ricardo não é errado. Toma, não obstante, o mundo que encontra por algo dado pelo menos desde o Dia da Criação. É somente por causa desse suposto que a teoria ricardiana se arrisca a dar-nos leis válidas para todos e para sempre. A filosofia burguesa, sem dúvida, é muito eficaz em descrever o mundo tal como o encontra e em criar, desse modo, os meios para geri-lo. Mas abdicando de compreender como o mundo se tornou aquilo que ele vê, é incapaz de transformá-lo.

Fazer a crítica da economia burguesa é, em boa medida, estudar a evolução do pensamento burguês e usá-lo como espelho que permite observar a evolução do mundo. De Smith para Ricardo, não foi só a economia política burguesa que se aperfeiçoou – como crê o materialismo vulgar. Foi também o capitalismo que se desenvolveu; foram as leis, que nunca são eternas, que se modificaram. Fazer a crítica é então encontrar no evolução das ideias a evolução do próprio mundo.

Mas o mesmo é válido para a autocrítica. A autocrítica de uma ideia e o processo de desvelar da sua base material. Assim, se devemos a Marx a intuição do papel do sistema financeiro no capitalismo, só Lenine o conseguiu descrever com propriedade. Naturalmente!… Quando Marx faleceu, o sistema financeiro ainda não se tinha desenvolvido completamente. E mais: a partir de 1935, o sistema financeiro deu um salto qualitativo. Infelizmente, enquanto se confundir autocrítica com acto de contrição, o marxismo não procederá a esta actualização necessária.

Mas este devaneio teórico está ainda longe de mostrar toda a sua força até ser confrontado com um problema actual.

É fácil ouvir pessoas de esquerda defender que a crise actual se deve à corrupção política. Que os políticos burgueses são naturalmente corruptos. Mas também é fácil demonstrar que, por muito que a corrupção seja um problema, a crise não é devida à corrupção. O dinheiro roubado nem chega aos calcanhares daquele que “desapareceu” simplesmente porque uma casa que valia 140 mil euros em 2004, vale agora 90 mil euros. Não foi a corrupção, mas porque há mais casas do que pessoas a comprá-las (o sector da construção civil dava emprego a um terço dos portugueses) que estamos em crise.

Um bom militante comunista reconhecerá o seu equívoco e fará o seu acto de contrição. Mas do acto de contrição à autocrítica vai um grande passo. Porque razão foi ele incapaz de compreender as razões da crise num primeiro momento? Há uma série de fugas em frente possíveis: foi um desvio pequeno-burguês, foi a comunicação social burguesa que o manipulou, etc. etc. Todas falsas.

É preciso compreender que para ganhar votos nenhum político se arrisca a explicar o seu programa. Porque o interesse geral não existe (todos temos interesse em ser mais felizes, mas isso implica um aumento constante do PIB ou não?). Porque alcançar os objectivos mais gerais de longo prazo (sair da crise) implica promover interesses particulares no curto prazo (facilitar a vida aos exportadores como está a fazer Portugal, estimular a procura interna com se faz nos EUA, ou proteger os trabalhadores como se fez na Islândia?), isto é, implica definir quem beneficia e quem paga determinada política.

Ora, um político demasiado honesto arrisca-se a perder votos entre aqueles que são chamados a arcar com os custos das suas opções (por mais acertadas que se venham a revelar) sem necessariamente ganhar votos entre aqueles que delas vão beneficiar. Portanto, quanto melhor esconder o seu programa, mais probabilidade tem um político de ganhar as eleições.

Nestas condições, o debate político rapidamente se reduz à discussão de quem são os político mais competentes e menos corruptas para assumir o governo. Consequentemente, numa situação de crise como a actual é difícil que não considere os políticos todos corruptos. Esse Zé Ninguém, a quem os políticos recusaram dar informações sobre o estado da economia e a justificar as suas decisões políticas, só pode pensar que os políticos são todos iguais.

Como se vê, fazer a autocrítica é muito mais que reconhecer o erro. É compreender-se a si mesmo e, desse modo, compreender os outros.

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7 de Abril de 2012 - Posted by | Metodologia | , ,

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