Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

A (in)estabilidade política no Brasil

Eu não sou economicista; mas a realidade é economicista “pra cacete”. Depois de Lula ter sido o Presidente brasileiro com maior aprovação popular (80%, só o ditador Vargas chegou perto) e de Dilma Russef ter herdado essa popularidade, as coisas começam a complicar-se. Não tenho dúvidas que o sucesso do governo petista deve-se a duas coisas: de um lado, o crescimento elevado da sua economia; do outro, aos programas de apoio social que esse crescimento económico pode pagar. A crise da Europa e dos EUA começa a por areia na engrenagem do governo brasileiro.

  • A desvalorização do real prejudica, sobretudo, as exportações industriais. Um champô vendido à Argentina a 6 dólares passou de valer 18 reais para valer apenas 12 reais. Entretanto, a desvalorização do dólar foi mais que compensada pelo aumento do preço dos commodities (alimentos e minério), devolvendo ao agro-negócio a força que ele perdeu durante o governo.
  • A subida da nova classe média (classe média lulista ) está a provocar uma elevada inflação. Obviamente, para esta nova classe média o saldo é positivo. Mas para a velha classe média (classe média FHC) o saldo é totalmente negativo: está a perder poder de compra. É por isso que é ela que vem protestando contra o governo (ver aqui e aqui também), apanhando os partidos de oposição à esquerda em contra-pé… ou, como se diz no Brasil, na contra-mão.

É por isso que não devia ter surpreendido ninguém que o tema da conversa entre Dilma e Obama tivesse sido a política monetária expansionista norteamericana. Guido Mantega voltou a insistir no tema na reunião do FMI. Não obstante, os comentadores políticos brasileiros têm razão quando dizem que há pouco a esperar de uma alteração nas políticas dos países “centrais”. No lugar deles, o Brasil faria o mesmo – fê-lo em 2008. E, depois, a própria crise inicia aquilo que as políticas monetárias do FED e do BCE reforçam.

O governo de Dilma Russef fica assim na corda bamba. A taxa de câmbio desfavorável põe-a frente a três dilemas.

  • Irá reforçar o peso do agro-negócio (mais próximo do PSDB) contra a burguesia industrial que suporta o actual governo petista. Entende-se porque Dilma Russef parou a reforma agrária.
  • A quebra das exportações, em valor obviamente, reduz a arrecadação de impostos e, portanto, a capacidade de promover políticas sociais. Ainda que a criação de emprego via PAC continue, sobretudo com a preparação da Copa do Mundo.
  • Finalmente, o afluxo de capitais estrangeiros ao Brasil devido à valorização do real está a levar ao aumento exponencial do crédito ao consumo. Como disse, os protestos populares contra o governo são, sobretudo, motivados pela inflação.

O único instrumento para reduzir a taxa de cambio, para além do paliativo da compra de dólares pelo Banco Central, é o abaixamento dos juros de referência. Mas essa redução levará automaticamente ao aumento da inflação, à redução da eficácia das políticas sociais, e aos protestos sociais.

Vai ser difícil sair desta.

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20 de Abril de 2012 - Posted by | Brasil, Economia | , , ,

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