Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O avanço do fascismo na Europa

A esquerda debruça-se com um problema: o avanço do fascismo na Europa. A dificuldade em confrontá-lo está na dificuldade em percebê-lo. O Ângelo, da secção internacional do PCP, escreveu este texto que é um bom ponto de partida. Não obstante, ao ficar com um pé na ética e outro na dialética, isto é, ao ficar entre a “teoria da conspiração” e a análise das condições objectivas, não chega à essência do fenómeno.

O Ângelo coincide com Žižek que, citando Walter Bejamin, afirma que a acessão do fascismo é o indicador da derrota de um partido revolucionário. Avança ao dizer que o partido revolucionário saiu derrotado na luta contra o capitalismo pouco preocupado com a acessão do fascismo. Mas deixa de ver os mecanismos objectivos pelos quais se dá essa luta.

Num texto meu já de há mais de um ano tentei mostrar como o modo como os partidos discutem política subtrai aos eleitores as informações necessárias para saberem o que está em jogo na política. Os eleitores acabam por avaliar os políticos de uma forma que pode ser resumida pela oposição entre o competente vs o corrupto.

Ora, este modo de avaliação tem duas consequências. Em primeiro lugar, ninguém que não conheça um politico pessoalmente pode falar acerca da sua honorabilidade. Isto, para quem conhece os políticos à distância, torna os políticos todos iguais. E mais, independentemente dos factores económicos em jogo, a culpa de uma crise vai ser sempre – para estes eleitores desinformados – a corrupção.

A segunda consequência é colocar em jogo uma ideia de moralidade conservadora. O político honesto começa por ser aquele que não rouba. De fracasso em fracasso, os eleitores passam a exigir cada vez mais veementemente que os políticos correspondam a este ideal de moralidade: sejam homens, brancos e de fato e gravata. A mini-saia da Gestora de um programa de  governo passa a ser o sinal da falta moral do governo, o sinal da sua corrupção.

Portanto, ao invés de protestarem contra o avanço do fascismo, os partidos de esquerda deviam apostar em atacar as raízes do problema. Isto implica duas coisas

  1. Entender que o fascismo é um movimento da classe operária desinformada, que acaba suportando a elite burguesa mais reaccionária. Isto não implica, em nada, uma manipulação consciente dos burgueses sobre os operários.
  2. Ele é boa medida resultado da despolitização da política. E essa despolitização da política alcança também as suas bases. Basta falar com alguns militantes para saber que eles acreditam que o principal problema do capitalismo é ser corrupto.

Isto exige:

  • Uma forte formação de quadros para que entendam que a crise se deve à tendência ao decréscimo da taxa de lucro e não à corrupção. O seu enraizamento na sociedade permitirá espalhar a mensagem.
  • E um cuidado na formulação da mensagem que, ao mesmo tempo que combata as políticas de direita, tenha o cuidado em instruir os eleitores. Nesse sentido é preciso mostrar que, sem revolucionar as bases da economia, os actuais políticos não têm outra hipótese senão fazer o que actualmente fazem.
  • Combater o Correio da Manhã, o que não será fácil…

A tarefa da esquerda não é informar os portugueses; é levá-los a uma mudança de paradigma, no sentido kuhniano. Um programa que eu já tinha indicado em Dezembro do ano passado.

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22 de Abril de 2012 - Posted by | Europa, Ideologia | , ,

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