Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Gramsci, 75 anos da sua morte

Hoje faz 75 anos que Gramsci morreu. Doente, obteve a liberdade para morrer. Por esse motivo fui reler as notas que eu tomei da leitura de um dos seus Cadernos. Ele polemiza com o marxismo dos stalinistas italianos, Trotsky e Rosa do Luxemburgo. A esta ultima Gramsci critica o facto de não entender o papel do partido na mediação entre as condições objectivas e as condições subjectivas. Àqueles primeiros, condena pelo facto de quererem aplicar o modelo russo a todos os países (ainda que eles discordassem ao definir o próprio caminho feito pela Revolução Russa).

Para Gramsci, as condições objectivas eras responsáveis apenas por três coisas: a) a divisão da sociedade em classes e fracções de classe; b) as necessidades imediatas – meramente económicas – dos indivíduos e c) a capacidade das classes dominantes manterem a sua hegemonia ao garantir a satisfação das necessidades imediatas dos dominados (por exemplo, aumentos regulares de salários). Enquanto a economia permitisse ir satisfazendo as necessidade imediatas das classes subordinadas, estas jamais questionariam o poder dos dominantes.

Assim, se a revolução só pode acontecer nos momentos de crise económica – como se pode bem observar comparando Portugal com o Brasil – , não é certo que a crise económica leve a uma revolução. Todo o trabalho posterior é um trabalho subjectivo, o qual é conduzido por indivíduos que são ao mesmo tempo líderes e porta-vozes das massas (Gramsci chamava-lhes intelectuais orgânicos por oposição aos intelectuais não orgânicos, que apenas se dedicam aos seus estudos). Enfim, a crise económica abre as portas à revolução; se a sociedade atravessa o umbral depende da capacidade de seus líderes para conduzi-la para lá.

Mas vale a pena lembrar, nem todos os intelectuais orgânicos estão interessados em que a sociedade avance. De certa forma, muitos formadores de opinião de direita são intelectuais orgânicos das massas (por exemplo, em Portugal, o jornalista José Gomes Ferreira). Também eles influenciam a disposição política das massas. É aqui que o papel do Partido de Vanguarda se estabelece: o Partido é uma organização dos intelectuais revolucionários que disputam pela direcção moral (portanto, subjectiva) das massas em confronto com outros intelectuais reaccionários (p. ex.: Medina Carreira) e mal preparados que, por vezes, com muito boa-vontade acreditam estar a contribuir para a revolução.

Adenda 4-5-12:

O salto de Gramsci para o chamado “euro-comunismo” é resultado de esquecer dois aspectos cruciais da tese gramsciana. Em primeiro lugar, se esquece qualquer influencia nas condições objectivas. Assim, a revolução é lenta, gradual, enfim, não é uma revolução, porque não se considera a existência e a necessidade de crises económicas.

Em segundo lugar, se assume que todos os intelectuais orgânicos são revolucionários. Deste modo o partido de vanguarda é completamente inútil. Basta tão só que o número de intelectuais orgânicos siga crescendo. Nem explicam a famosa expressão atribuída a Gramsci: “se existirem dois partidos revolucionários, pelo menos um está errado”.

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27 de Abril de 2012 - Posted by | Ideologia | ,

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