Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

As cores da educação

O Brasil acaba de aprovar uma bolsa de cotas para negros – ou, mais exactamente, indivíduos que se reclamem como tal. Em outra altura eu seria contra. Com fui, há anos, contra as cotas de mulheres na Assembleia da República em Portugal. Era contra pelas mesmas razões que são expressas neste texto: a discriminação racial é sobretudo uma projecção da discriminação económica. Uma política que ataca uma projecção… falha a essência do problema.

Com o tempo fui confrontado com outra forma de ver o mundo. Foi bem o resultado de muitas leituras sociológicas*. Aprendi a levar em conta que o facto das desigualdades sócio-económicas ganham uma aura de legitimidade simplesmente por se projectarem em marcadores como a cor de pele (apoiando-se na correlação entre um e outro, imediatamente apercebida pela estatística espontânea do senso comum). Dizem: a universidade não é para negros. Ou pior, dizem os negros: a universidade não é para nós.

É por isto que modifiquei a minha visão sobre as cotas. Ao mostrar que a universidade é para todos, eles forçam a desigualdade sócio-económica a expressar-se com toda a sua violência. E, portanto, criam condições para combatê-las com igual veemência. Assim, o argumento de que o maior prejudicado com esta política é o branco pobre é falso. É falso porque muito branco pobre identifica-se mais com o negro marginalizado na universidade que com o branco engravatado que o marginaliza.

Aliás, voltando ao texto que me fez escrever este post (“A justiça com lentes coloridas“) devo ainda discordar de outro argumento. Por muito que as estatísticas mostrem que o gargalo está nos ensinos fundamental e médio, é lá onde ele é visível, nos níveis graduados e pós-graduado, que ele deve ser atacado em primeiro lugar. Para torná-lo visível socialmente. Até porque a alternativa de panfletar os censos do IBGE na Cinelândia não me parece viável.

Sem dúvida, se algum dia fui contra as cotas foi por efeitos de um marxismo economicista que professei durante muito tempo!

* Diz algures o sociólogo Pierre Bourdieu que há uma lei das instituições segundo a qual “os titulares de uma das propriedades que favorece o acesso a posições de poder, por exemplo determinado título académico, ficam automaticamente em vantagem, na competição que os opõe aos detentores de outras propriedades (no quadro de uma empresa pública ou privada),  quando a personalidade que ocupa uma posição dominante é igualmente dotada dessa propriedade”.

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28 de Abril de 2012 - Posted by | Brasil, Sociedade Brasileira |

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