Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Viragem à esquerda

O marxismo tem destas coisas. O esforço por conhecer as fracções de classe por detrás de um dos pontos de vista no debate político torna a explicação extremamente produtiva. Mas uma vez definida uma certa divisão da sociedade em classes e fracções de classe tendemos a tentar explicar tudo a partir dali. É como tentar enroscar parafusos com um martelo.

Arriscando-me, portanto, a enroscar parafusos com um martelo, prevejo uma viragem de Portugal à esquerda. E não digo isto referindo-me somente a uma viragem do poder do PSD para o PS. Mas, sobretudo, a uma alteração fundamental no modo de entender as relações entre a economia e a política que, no final de contas, porá esta  dominar aquela. Isto é, se hoje a economia dita o que fazer dos políticos, “amanhã” a política poderá começar a ditar os objectivos dos empresários.

Futurismo? É certo que sim! Mas vale a pena arriscar previsões.

A minha análise da passagem de testemunho de José Sócrates para Passos Coelho leva-me a crer que existem 3 sectores pertinentes na economia Portuguesa: construção civil, banca e exportações. O primeiro “morreu” em 2011; o terceiro tentou governar a partir de junho de 2011, mas em fevereiro de 2012 rendeu-se às evidências do seu fracasso. A política só continua a favorecer-lhes porque os seus interesses coincidem, mas só em parte, com os dos credores de Portugal. A banca quer agora tomar as rédeas do governo nacional, embora essas estejam entregues ao FMI.

Tais condições, associada a uma mudança de estratégia da Europa (ver aqui também) faziam prever que o controlo do Estado passasse dos exportadores, de novo, para a banca. Mas a decisão do juíz de Portalegre (e aqui) promete fazer história. Ao afirmar que a entrega das casas sobre o qual recai uma dívida salda a dívida – num contexto em que a queda do mercado imobiliário fez cair o preço das casas para valores bastante inferiores aos pré-crise e, portanto, aos valores da dívida – , pode colocar a banca de novo em apuros. Até porque, neste contexto em que a banca ainda está fora do governo, os partidos prometem passar aquela decisão a lei.

Ou seja, ao fundo do túnel nenhum sector capaz de impor-se ao Estado como solução para a crise. Ao fundo do túnel, para falar verdade, nenhuma solução para a crise. É, portanto, provável que se imponha ao Estado a necessidade de colocar as mãos na economia – até agora temos visto a economia com as mãos no Estado – como única solução para o buraco onde estamos. O regresso dos nacionalismos tenderá dispor a opinião pública – em termos marxistas: criará as condições ideológicas – para essa mudança.

O único obstáculo pela frente será apenas o medo da corrupção. Medo que as notícias de hoje vêm reforçar. (Como me disse um amigo, não se pode falar verdadeiramente de favorecimento até ver como certas universidade privadas seleccionam professores. Portanto, associar a corrupção ao Estado é um equívoco profundo).

Mas tenhamos consciência: não estamos a falar do caminho para o socialismo; mas do regresso do velho Keynes que buscava salvar o capitalismo dele mesmo.

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29 de Abril de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , , , , ,

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