Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Marxismo e corrupção

Para um marxista, falar de corrupção coloca um problema. A economia é a infra-estrutura da política. O que isto quer dizer? Que um político só toma decisões olhando para a economia. Tendo em conta para a crise actual, os políticos olham para os diferentes sectores económicos a ver qual oferece o melhor caminho para sair do buraco. Portanto, a forma da economia – no feudalismo, no capitalismo ou no socialismo – dita a forma do debate político.

Se existir apenas um sector forte na economia, o debate político é acerca de pequenos fait divers. Se existirem dois ou mais sectores fortes, capazes de parecer uma luz ao fundo do túnel, então dão-se duas coisas. Por um lado, os políticos dividem-se sobre qual o sector deve ir à cabeça da solução. As divisões entre os políticos, portanto, duplicam as divisões da economia em sectores. É neste sentido que a economia dá a forma ao debate político.

Por outro, os sectores económicos entram em concorrência pelo apoio político. Fazem-no por meios legais e por meios ilegais. Só nestes últimos falamos de corrupção. Mas antes que a corrupção se estabeleça a economia já influencia a política de muitas maneiras: pelo simples facto de existir até à formação da opinião pública. Vejamos um exemplo! O governo de Passos Coelho assumiu, pela sua formação, que a única saída para  a crise são as exportações. A primeira medida de um governo racional é perguntar aos exportadores como ajudá-los. Essa resposta influenciará a política do governo. E não se pode falar ainda de corrupção.

Na realidade – e essa foi a grande descoberta de Marx – política e economia são as duas faces de uma mesma moeda. Por isso, falar de corrupção como se política pudesse ser posta de um lado e economia do outro, como faz a burguesia, é um erro.

Além disso, – seguindo as descobertas de Marx – uma crise nunca se deve à corrupção mas sim à tendência decrescente da taxa de mais-valia. Sabemos que no momento em que as empresas entram em crise, os seus gestores socorrer-se-ão de todos os meios legais e ilegais para salvaguardar o seu património. É por isso que em crise se viola demasiadas vezes a lei. Mas dizer que foi a corrupção que causou a crise não é só um equívoco profundo. É esquecer que a economia capitalista é cíclica e que, mesmo com os gestores e políticos mais honestos, termina em crise.

Isto não quer dizer que um marxista não deva falar de corrupção. O momento da crise é um momento de luta em todos os sentidos. É uma luta entre os diferentes sectores da burguesia e, sobretudo, de luta entre a burguesia e o trabalhadores para ver quem paga as favas da crise. Da revisão do Código de Trabalho à questão das rendas da energia, tudo são disputas pela distribuição da riqueza minguante. É preciso portanto opor-nos ao uso de meios ilegais pela burguesia – à corrupção – nesta disputa. Mas é igualmente necessário opor-nos às tácticas legais usadas pela burguesia.

Mas neste sentido é necessário separar os casos de política dos casos de polícia. Saber se tal ou tal políticos é corrupto é um caso de polícia. Saber se a polícia funciona ou não é um caso de política. Saber se este ou aquele boy foi contratado por um preço absurdo é um caso de polícia. Saber se o Tribunal de Contas agiu em conformidade é um caso de política.

Não transformemos os homens em bodes expiatórios do sistema!

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30 de Abril de 2012 - Posted by | Ideologia | , ,

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