Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

O capitalista colectivo

Páginas tantas d’O imperialismo: fase superior do capitalismo, Lenine escreve:

(…) a concentração do capital e o aumento do movimento dos bancos modificam a importância real destes últimos. Os capitalistas dispersos acabam por constituir um capitalista colectivo. (…) [pois] um punhado de monopolistas subordina as operações comerciais e industriais de toda a sociedade capitalista (fonte)

Andarei eu desinformado? Neste trecho aparece uma categoria que não me parece ter tido desenvolvimento posterior. Uma pesquisa rápida no google usando como palavras chave ‘collective capitalism’ leva-me a uma definição completamente distinta: ora a forma asiática do capitalismo, onde os trabalhadores participam na gestão das fábricas; ora um capitalismo guiado pelo Estado; ora um sistema misto, entre o capitalismo e o comunismo, um mercado concorrencial de cooperativas. Nenhuma destas se assemelha à noção de capitalista colectivo utilizada por Lenine. Estas são, pelo contrário, noções bastante empiristas, sem qualquer consistência teórica. E, no terceiro caso, de um voluntarismo deplorável.

O que é grave é que, como se irá ver, esta categoria é muito valiosa para compreender o capitalismo actual.

Uma quarta abordagem, essa sim muito semelhante à lenineana, é a de Gardiner C. Means, que encontrei aqui e aqui. Means é um economista heterodoxo (leia-se, alguém que se reclama seguidor de Keynes e lê, embora cite pouco, os marxistas). Mas as suas pesquisas datam da década de 1950.

A noção de capitalista colectivo, no sentido de Lenine, parece-me trazer três contributos para o debate actual:

  • Primeiro, estabelece a relação entre banqueiros e industriais

Colocando os segundos como quase funcionários dos primeiros. Isto evita os erros da dissociação entre economia produtiva e economia especulativa que acabam sempre por esquecer que não pode haver um sem o outro. A especulação amplia o capital disponível para investir; a riqueza produzida pelos investimento é o motivo da especulação (i. é, o objecto sobre o qual se especula).

Esquecendo esta relação, simples e óbvia, deixa de existir exploração do trabalhador pelo capitalismo. Passa a haver exploração do homem endividado pelo banco. Esquecendo esta relação, o problema não é de concentração de capital, é de concentração de moeda. Esquecendo esta relação, o problema não é a contradição ente o lucro e o salário, mas a usura, a avareza e a preguiça da elite financeira. Estamos aqui perante três formas de populismo moralista. Três pseudo-análises que limitam-se a formalizar aquilo que pensa o senso comum. Uma pretensa vanguarda que se coloca na retaguarda.

  • Segundo, estabelece a relação entre os empresários e o Estado

Mas a fórmula leniniana de ‘capitalismo colectivo’ encerra ainda outra virtude. Ela explica muito bem as relações, legais e ilegais (i. é, corrupção) no capitalismo actual. Ao separar os grandes capitalistas dos seus coadjuvantes, podemos verificar que são estes coadjuvantes que ora surgem como membros do governo, ora como empresários.

Pense-se em António Borges, administrador do grupo Jerónimo Martins e líder da equipa que dá acompanhamento ao processo de privatizações em Portugal. Ou pense-se em Jorge Coelho, ex-Ministro das Obras Públicas e actual CEO da construtora Mota Engil. O recente livro de Fernando Rosas e amigos permite, talvez, entender melhor esta dinâmica. Ainda que, ao folhear, me pareça que ele não leve em conta um terceiro aspecto – que já estava presente na noção de ‘capitalista colectivo’. (É verdade que o pessoal do BE não se reconhece com leninista).

  • Terceiro, expõe a burguesia e as suas lutas internas

A última vantagem da categoria ‘capitalista colectivo’ é levar em conta que os vários capitalistas colectivos concorrem entre si. Os acordos são sempre pontuais, a contra gosto, quando o capitalista fraco reconhece a força do outro. Por isso mesmo temporários. A paz e a guerra entre capitalistas, diz muito bem Lenine, são apenas dois momentos da concorrência.

Este último aspecto poderá consolidar o trabalho que já venho fazendo de análise da política portuguesa e cuja última sistematização se encontra aqui. O trabalho de Niel Fligstein é um bom ponto de partida para entender de uma maneira ampla estas disputas. Mas, não tendo nada a ver com o marxismo, ele exige uma leitura atentamente crítica.

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5 de Maio de 2012 - Posted by | Economia, Metodologia | , , ,

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