Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre a radicalidade do KKE

Acabo de ler o comunicado do KKE acerca do ato eleitoral na Grécia. A posição do partido comunista em não negociar governo com o partido Syriza está ser muito criticada pela esquerda portuguesa. Nestas análises, compara-se a posição do KKE com um certo texto de Lenine onde se afirma que sempre teve disposto a trabalhar nos “sindicatos amarelos” – sob pena de deixar os operários aí organizados nas mão livres de líderes pequeno-burgueses. Eu próprio usei este texto para defender uma aproximação entre o PCP e os Indignados, M12M ou o raio que lhe queiram chamar.

Mas é um prefeito disparate usar o mesmo argumento para a formação de um governo. Há uma relação entre directa entre as condições subjectivas de um país e a política de alianças de um partido de vanguarda – esse é o argumento de Lenine em Que fazer. Se há hipóteses de formar governo é porque as condições subjectivas estão avançadas. Então exige-se uma política de alianças mais estrita. Se essa política de alianças inviabiliza o governo, então as condições subjectivas não está tão avançada quando se pretende ou, pelo contrário, as exigências feitas não passam de exigências tontas.

A discordância entre o Syriza e o KKE resume-se a um ponto central: a saída unilateral do processo de construção da União Europeia. O KKE continua a ver o projecto europeu como um projecto capitalista. Neste sentido, o ponto nevrálgico de debate é a  continuidade ou não na União Europeia. Mas no último ponto do seu programa, a Syriza mostra a sua ambiguidade em relação é Europa. Nota-se ali um europeísmo escondido. (Curiosamente, ponto esse que anda lost in translation). E dadas as posições da Comissão Europeia, o programa do Syriza e a continuidade da Grécia na UE são incompatíveis.

É aqui que o KKE vê, na posição do Syriza, lobo em pele do cordeiro. Em nome da continuidade no projecto europeu, o KKE espera que o Syriza abdique, ponto a ponto, do seu programa. Acrescento eu: sobretudo porque, com um governo minoritário, será necessário um agente externo – o FMI, a estabilidade política, etc. – para ajudar no braço de ferro entre governo e oposição. Mas tudo isto é, na essência falso. O Syriza sabe de tudo isto; sabe que não pode formar governo. Estas negociações são campanha eleitoral. E o lobo em pele de cordeiro aparece então de outra forma. O Syriza está a fazer tudo para ir a novas eleições com um projecto irrealizável. Ao mesmo tempo que é contra a CE, não põe na mesa a saída da UE.

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9 de Maio de 2012 - Posted by | Economia, Europa | , , ,

7 comentários

  1. O europeísmo do Syriza é notório. Mas estamos a falar de dois “diferentes” planos políticos. Não questiono a caracterização qe o KKE faz da UE. Agora, a derrota da Troika é uma tarefa imediata. Aliás, penso que uma coisa levaria à outra. A ruptura com a Troika, da parte de um governo de esquerda grego, iria levar o Syriza a uma contradição que teria obrigatoriamente de resolver, ou capitulando ou mantendo um programa de esquerda. Quem sabe, o que tu chamas condições subjectivas no país iriam desenvolver-se a um ponto de ruptura com a UE. Eventualmente, seria inclusivamente o KKE que sairia a ganhar, ao nível de credibilidade e apoio das massas. Enfim, o problema é que nem estamos sequer a debater uma formação de governo, mas sim negociações para a formação de um governo, que, graças a uma táctica que considero ultra-esquerdista, ficaram na praia.

    Comentar por Tiago Silva | 9 de Maio de 2012

    • Meu caro, não são nem sequer negociações para a formação de um governo. Já é campanha eleitoral para as próximas e inevitáveis eleições. O Syriza está a fazer a parte dele: mostrar que não foi ele o responsável pelo facto destas eleições não ter saído um governo. É o que eu chamo política fetiche, com a qual nem o KKE nem o PCP aprenderam a lidar ainda.

      Comentar por Jose Ferreira | 9 de Maio de 2012

      • Caso tenhas razão, a melhor maneira seria negociar um programa de ruptura com a troika e um conjunto de medidas de relançamento da economia (que inevitavelmente iria levar a uma contradição com a permanência na UE) e testar a fidelidade do Syriza. Que tem o KKE a perder?

        Comentar por Tiago Silva | 9 de Maio de 2012

      • Pois. O PCP e o KKE têm uma incapacidade absurda de gerir aparências. Eles esquecem-se que às vezes, em política, é preciso fazer coisas que não dão em nada. Lêem Lenine; não lêem Goffman.

        Comentar por Jose Ferreira | 9 de Maio de 2012

  2. O facto é que uma Europa Social é algo que não está na agenda política europeia (não me venham com a conversa da solidariedade de Passos Coelho e dando o exemplo dos fundos do FSE, esses fundos são fruto de negociações e todos participam, os que os recebem também abdicaram de algo); por isso em campanha – em bom rigor – já podem estar o Syriza e KKE. Ambos ( e os restantes). Até porque mesmo juntos, fica a faltar mais gente para encher cadeiras.Pergunto: será este o momento em que se percebe o quanto falta trabalhar fora do parlamento? E que diferença faria um governo de esquerda na vida das pessoas mesmo não sendo o ideal mas sendo muito diferente do “centro-esquerda” que nos tem afundado? Ser tão progressista ao ponto de capitular perante a troika e recusar poder de governar à esquerda …bom!!..só espero que seja parte de uma estratégia para adquirir muito mais do que os 51% do parlamento necessários. Caso contrário é capitulação leviana ( não cito hoje, leio os talões de compra de muita gente no Sul da Europa).É bom que estejam realmente preparados para uma revolução, porque senão, estamos a perder o barco.

    Comentar por rui | 9 de Maio de 2012

    • Rui, é difícil falar de capitulação. Um governo à esquerda, minoritário, sem apoio da UE, não iria aprovar nada na Assembleia da República. Como romper o Acordo com a Troika? Isso passa pelo Parlamento, ou não? Somente se ia desgastar. O Syriza sabe disso e por isso não pretende honestamente formar governo. A não ser que seja doido! Também não pode ser acusado, na campanha eleitoral que se segue, de não ter pretendido formar governo.

      Comentar por Jose Ferreira | 9 de Maio de 2012

      • Não discordo do que dizes. Qualquer pessoa percebe que tipo de governo seria formado nestas circunstâncias. E quanto tempo duraria. Esperemos pelos resultados das próximas eleições para ver até que ponto poderá ter havido ou não uma reconfiguração da Assembleia para o futuro. Penso (e sei que concordas) que é precisamente o trabalho que tem que ser feito para influenciar a configuração da assembleia é que tem estado em causa há muito tempo. E nisso a esquerda tem que se focar, as fórmulas não se repetem mas em outros tempos a diversidade e a profundidade da actividade política das esquerdas moveu montanhas (quando nem sequer os parlamentos estavam abertos para estes movimentos e partidos de massas). Quanto a um governo minoritário, poderia ser mau vê-lo cair por enfrentar a UE-FMI-BCE-Goldman Sachs nesse campo aberto, mas fica a dúvida: quem sairia deslegitimado: um governo que pecaria por devolver o poder de decisão ao seu Povo ou quem o faria cair? (Demasiado otimista e fantasioso pensar assim, mas alguém tem que lançar a primeira pedra).

        Comentar por rui | 9 de Maio de 2012


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