Quando comecei a escrever este texto, pretendi criticar uma análise de Alan Woods à recusa do KKE em formar um governo de unidade de esquerda na Grécia. Mas logo vi que é preciso ir bem mais longe nessa crítica! Ainda que comece por aí. A análise do trotskista inglês, e da organização que fundou, esquece que tal governo é impossível. O programa contraditório apresentado pelo Syriza para a formação de um governo, sairia esfacelado no inevitável braço de ferro que se seguiria à tomada de posse. O Syriza e o KKE, sem maioria no Congresso, só poderiam fazer aprovar o fim do acordo com o FMI com apoio da extrema-direita fascista. E, por outro lado, a intransigência alemã iria obrigar o Syriza a optar entre manter a política de austeridade ou abandonar o projeto europeu.
Ora, a Syriza, certamente mais para obter votos que por cegueira intelectual, continua a afirmar a possibilidade de um projeto europeu contra a austeridade. Orientado por este projeto inviável, um governo de esquerda iria durar apenas uns meses. Não faria mais que desgastar os partidos que o formariam e permitir o regresso da direita. Por isto mesmo, não faz sentido ver o convite da Syriza ao KKE para formar governo como um convite de facto. Trata-se, pelo contrário, da primeira ação de campanha para a repetição das eleições. E esta é a primeira razão pela qual o KKE recusou reunir-se com a Syriza. A Syriza quer evitar se acusada de ter promovido a instabilidade política e não tentado encontrar uma solução de governo. O KKE quer insistir no elemento central da sua campanha: somente rompendo com a Comunidade Europeia se pode sair das “garras” da austeridade.
Mas não é possível explicar o equivoco de Alan Woods sem perceber o modo como ele leu os resultados eleitorais em toda a Europa. Pelas aparências; não da sua essência. Pode tanto falar-se de uma viragem da Europa à esquerda – como faz Alan Woods e não só – como, há cerca de um ano, depois das eleições em Portugal e Espanha, pôde falar-se em viragem da Europa à direita. É preciso considerar o médio prazo para não se deixar enganar pelas pequenas mudanças que se anulam poucos em poucos anos. O que continuamos a assistir é antigo. Os partidos do status quo continuam a alternar-se no poder. Na França, o partido socialista ganhou as eleições. Na Grécia, pelo contrário, perde-as para o “centro-direita”, isto é, do PASOK para a Nova Democracia. Por outro lado, – e esta é a novidade trazida pela crise – o “centro”, os partidos do status quo, está a implodir. Este segundo processo, na Grécia, obscureceu o primeiro. De facto, foi a Syriza e não o PASOK que disputou o governo com a Nova Democracia. Mas foi também esta implosão do “centro” que, na França, esteve na origem do crescimento da Frente Nacional. Portanto, a vitória de François Hollande e a vitória de Alexis Tsipras nem sequer são fruto do mesmo processo social.
Ao mesmo tempo, a confiança de Alan Wood nas massas, está longe de ser resultado de uma análise atenta da realidade. Com a crise, a massa operária não se volta para a esquerda, mas para os extremos. Se se voltam para a esquerda revolucionária ou para o fascismo, isso depende da cultura nacional. Na Grécia, a cultura anti-imperialista cultivada pelo empenho na luta pela independência do Chipre em relação à Turquia, favorece o crescimento dos partidos de esquerda socialista. No resto da Europa, a direita fascista tem tido mais sucesso (ver aqui também) que a esquerda revolucionária. É a confiança cega nas massas é que leva Alan Woods a equivocar-se na análise. Ele vê no populista e contraditório programa da Syriza “um grande passo à frente”. Afinal, vou avalizado pelas massas nas eleições. Recordemos: as medidas de austeridade, em Espanha e em Portugal, também. E, claro, também por isto o trotskista inglês só pode ver na atitude do KKE sectarismo… Por isto, ou porque é trotskista!