Uma esquerda que serve à direita.
Nem era para tocar neste assunto, mas depois de um debate com o Nuno Leal, o João Vilela e o João Valente Aguiar no facebook, resolvi comentar a ideia peregrina de uma refundação da esquerda lançada por militantes do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. A ideia não é nova e, por isso mesmo, não é novidade a posição que eu tomo sobre o assunto. Trata-se de uma posição constitutiva do BE que, como disse aqui e aqui, se baseia num erro.
Trata-se de um projeto de soma quantitativa de “força” ou, mais exatamente, de “líderes” e de votos. Não se trata do necessário: alterar a disposição moral das massas – para falar em termos gramscianos. Por isso, o diagnóstico da crise é feito de modo tão amplo que pouco passa de uma formalização da opinião do senso comum: “As raízes desta crise estão no desprezo do que é público”. Tão amplo, que serve até à extrema-direita. Tão amplo, mas não o suficiente para caber nele o marxismo. Estreito demais para poder afirmar que a crise de deve a dinâmica da economia assente na propriedade privada e não ao egoísmo e à imoralidade dos políticos. Enfim, um projeto de esquerda mais empenhado em ganhar eleições que em difundir um discurso marxista sobre a crise.
Ignorar as diferenças entre os diferentes grupos de esquerda em nome da unidade, poderá até ajudar os partidos de esquerda a ganhar mais votos. Debater tenaz e respeitosamente essas diferenças ajudará as pessoas a compreenderem as razões pelas quais estamos em crise. Só esse debate porá múltiplas perspetivas sobre a crise à disposição dos eleitores. Assim, a opção é simples: quem queremos ajudar? Os partidos (a ganhar votos) ou as pessoas (a compreenderem a crise)?
Diga-se de passagem, neste caso, nem existe esta opção. Defendendo explicações de direita (“as raízes desta crise estão no desprezo do que é público”), esta esquerda capta votos para a direita. Pois, como eu já disse aqui, se o problema está na má gestão dos políticos, então – como dizem os partidos de direita – reduza-se o Estado e as oportunidades de roubo. Se o problema está, como diz Marx, na economia e na queda tendencial da taxa de lucro, então amplie-se o Estado para transformar a economia e superar essa lei económica.
Em suma, um erro crasso. Uma estratégia que não vê o essencial. Que não dá conta que a extrema-direita cresce – e a esquerda decresce – à bolina do discurso “estamos em crise porque fomos roubados pelos políticos”. Uma estratégia que não nota que, mais do que ganhar eleições, é importante desfazer este mito de que “os políticos são todos corruptos”. (Afinal, que poderia fazer um governo de esquerda que chegasse ao governo apoiado em mitos? Nada mais que a direita: governar como se os mitos fossem verdades).
O João Vilela foi mais certeiro e mais fulminante que eu. Vale a pena ler o texto dele aqui.
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«Tão amplo, que serve até à extrema-direita. Tão amplo, mas não o suficiente para caber nele o marxismo. Estreito demais para poder afirmar que a crise de deve a dinâmica da economia assente na propriedade privada e não ao egoísmo e à imoralidade dos políticos. Enfim, um projeto de esquerda mais empenhado em ganhar eleições que em difundir um discurso marxista sobre a crise.» Inteiramente de acordo!
«em difundir um discurso marxista sobre a crise.» e a estabelecer uma praxis para chegar ao poder coincidente com os objectivos e os princípios marxistas. Gostei muito dos dois artigos.