Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Notas sobre ideologia

Acabo de ouvir, completamente, a palestra de Savoj Žižek em Maastricht. A atenção que os esloveno dá à analise da ideologia faz dele um dos mais perspicazes opinion makers de esquerda. Ele fez a única análise do movimento Occupy, Indignados, etc. que concordo: não discutiu o seu mérito mas o seu potencial. (Deixo isto para outro post). O que não quer dizer que concorde com tudo o que ele diz. O debate que ele propõem em torno das categoriais económicas do Marx, por volta da 1 hora de vídeo, é de bradar aos céus. (Devo confessar, no entanto, que não li mais do que o seu livro sobre Lacan e a Introdução do seu Mapping Ideology).

Mas o mais interessante das palestras de Žižek é a sua capacidade de encontrar exemplos para discutir ideologia. Este  exemplo é um bom ponto de partida:

Num café
[empregado] Deseja algo?
[cliente] Um café sem natas.
[empregado] As natas acabaram. Posso trazer-lhe um café sem leite?

Obviamente, é uma anedota que funciona bem nos EUA, onde poucos bebem café expresso. Ma ele expressa, de forma muito simples, onde procurar a ideologia. Ela não está nas coisas – no café – mas no que não está e que ajuda a definir as coisas.  É mais fácil explicar as coisas a partir de outro texto. O texto (1) de um professor meu, Moacir Palmeira, escrito em 1977.

Quando o texto foi escrito, a morada, isto é, ceder casa e terra a um trabalhador para garantir o seu trabalho na fazenda, estava a desaparecer. Cada vez mais as fazendas de cana-de-açúcar se livravam dos seus moradores e contratavam trabalhadores nos bairros periféricos das cidades. Por isso mesmo, a morada tornou-se, ao mesmo tempo, referência para a hierarquização de trabalhadores (aqueles que ainda tinham boas moradas seriam supostamente os melhores) e também o símbolo – tanto nos seus aspectos positivos como negativos – da omnipresença do fazendeiro.

Não vou entrar aqui nos pormenores do texto do Moacir. Apenas notar que ele apresenta as três condições sobre as quais Žižek define, nessa palestra, ideologia.

  1. A ideologia não é um óculos que nos impede de ver a realidade. Pelo contrário, necessitamos de óculos – isto é, treinar-nos – para reconhecer a ideologia.
  2. A ideologia é o outro lado da realidade: a nata ou o leite do café. Ou seja, ela é a idealização da realidade. O que existia em 1972 (momento da pesquisa) não era a morada, mas a morada em desaparecimento. Só uma pequena maioria de pessoas eram moradores. No entanto, situados no topo da hierarquia entre trabalhadores, eram a materialização do ideal que todo o trabalhador aspirava.

O terceiro aspecto é mais complexo. Até porque, neste ponto, o pensamento de Žižek diverge com as pesquisas dos meus professores. Para o filósofo nem todo o comportamento desviante põe em causa a norma! Recusar o creme no café, é afirmar que o café deve ser bebido com creme. Ou, como exemplifica Žižek, optar por produtos de comércio justo é continuar a manter a cultura consumista do ocidente e, ao mesmo tempo, pagar, como consumidor, um política que reduza um impacto desse consumismo. Assim, muitas acções de protesto contra a ideologia dominante arriscam-se a reforçá-la. É papel dos intelectuais ajudar a distinguir entre as acções que põem a ideologia dominante em causa e aquelas que, apesar de serem levadas a cabo com a intenção contrária, fortalecem a ideologia.

Já as pesquisas dos antropólogos do Museu Nacional nos leva por outro caminho. Ideologia – termo que não usam – não se divide em duas: uma conservadora e outra realidade, como para o marxismo actual; ou uma divisão entre ideologia e realidade, como para o marxismo de 1950 e ainda, de certo modo, para Žižek. A ideologia é a cultura ou a forma de ordenar o mundo de uma classe ou fracção de classe. Os seus elementos podem ser conservadores ou revolucionários em função do contexto. São certamente conflituosos. Não por acaso, a “ideologia da morada” se fortaleceu quando os fazendeiros começaram, paulatinamente, a dispensar moradores. E quando os fazendeiros decidiram, de uma vez por todas, acabar com o sistema de morada, o “desejo de morar” foi o que mobilizou os trabalhadores pela reforma agrária.

Moral da história: A ideologia não é conservadora ou revolucionária pelo seu conteúdo. Ela torna-se uma coisa ou outra como resultado da sua interacção com o contexto económico, político e social. E, por outro lado, esse efeito conservador ou revolucionário depende igualmente do encaminhamento que os líderes desses grupos sociais lhes derem. Mas esse último aspecto é outra história.

(1) Casa e trabalho: notas sobre as relações sociais na Plantation tradicional”. Contraponto. Novembro de 1977.

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21 de Maio de 2012 - Posted by | Ideologia, Metodologia | , ,

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