Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Falso marxismo

Anda aí um citação, supostamente atribuída a Marx, que é falsa. Mas é tão tomada como verdadeira que até a própria direção da Izquierda Unida já a citou num comício. Os trotskistas, que vivem para “corrigir” a esquerda marxista-leninista, já vieram cantar de galo. A frase reza assim:

Os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens, carros, casa e tecnologia, impulsionando-a cada vez ao mais caro endividamento, até que a sua dívida se torne insuportável.

Existem três boas razões para não divulgar esta frase. Primeira, para não permitir que certa esquerda, parasita da esquerda, encontre mais uma oportunidade para parasitar. Segunda, trata-se de uma abordagem muito naïfe: própria do anarquismo e não do marxismo. Divulgar é dar razão aos anarquistas que acreditam que a exploração hoje se faz pela dívida e não mais pelo trabalho. Estas teses do homem-endividado são falsas e não dão conta o quanto o endividamento dos trabalhadores é um fenómeno secundário na dinâmica do capitalismo. Quando olhamos o desenvolvimento do capitalismo ao longo do século XX, como eu fiz aqui, vemos que o endividamento dos trabalhadores surgiu na década de 1980 e como complemento da dinâmica capitalista já em marcha. Enfim, o eixo da reprodução do capital seguiu sempre sendo a exploração do trabalho.

Mas a terceira razão, a mais importante, pela qual se deve ter cuidado com estas frases é que ela está nas antípodas do pensamento marxista. Num momento de acesa luta ideológica (como se vê no parágrafo anterior) o rigor ideológico é a arma indispensável de um marxista. Marxismo é o modo como Marx olhava a realidade e, apenas em segundo lugar, as suas conclusões. E aquela frase opõe-se por três razões ao modo como um marxista deve olhar o mundo.

1. A primeira é imediatamente marxista. Marx começou a falar de “comunismo científico” porque propôs uma filosofia política que se baseia na realidade. Prever o futuro, como disse Marx, não é coisa de um comunista. Se o Manifesto descreve melhor o séc. XX que o séc. XIX foi porque Marx se focou naqueles aspectos dos séc. XIX que viu a desenvolver-se. Assim, se há algum futurismo no marxismo é quando parte do suposto que o futuro já existe, em embrião, no presente. Afinal, o futuro em sentido estrito não existe e é impossível analisar. Falar do futuro é ser utópico; para ser cientifico é necessário falar do presente.

2. Lenine, por seu turno, deu um passo em frente. O marxismo é um método de análise subordinado à acção política. Ou, nas suas palavras, a prática valida a teoria. Assim, fazer teoria para os outros, para os que hão-de vir, nada tem de marxismo. O marxismo sabe que não pode actuar sem estar teoricamente informado. A teoria é o antídoto da falsa ideologia. Por outro lado, de nada serve fazer teoria senão para pô-la em prática. Enfim, a teoria não se faz para estar aí num livro. Mas para criar um mapa do que fazer imediatamente.

3. Finalmente, temos o alerta de Álvaro Cunhal. O culto dos líderes, mortos ou vivos, é quase sempre uma desculpa para que cada um que se diz marxista estude a realidade. Ah! Marx, Engels, Lenine já disseram tudo, agora é só por em prática?! Os diagnósticos estão feitos, falta realizar?? Falso! É falso. Se, como Marx disse, o mundo muda constantemente (tudo o que é sólido se desfaz no ar), a teoria que o explica necessita de mudar também. O culto aos mortos é uma forma de preguiça intelectual dos vivos.

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24 de Maio de 2012 - Posted by | Ideologia | , ,

6 comentários

  1. Caro Ferreira

    Duas notas:

    A primeira é que Marx não disse aquela frase. É mais que óbvio. A realidade que ela refere não é contemporânea de Marx. Mas podia tê-lo dito se o seu enfoque de análise fosse a realidade contemporânea. Ela, a frase, não nega ou contradiz a análise marxista do modo de produção capitalista. Contudo dado que não conheço a frase no seu contexto… só esse conhecimento poderia permitir mais profunda análise.

    A segunda tem a ver com o “ataque” ao trotskismo. Aqui é que o “descontexto” é tão gritantemente grande que assume um carácter de deriva sectária e (arriscando eu) stalinista.

    Mas mais importante que a rotulagem é que o imperialismo está numa processo ofensivo sem precedentes, causando potencialmente condições objetivas de roturas sociais, que, o que importará, será discutir as melhores formas de criar as condições subjetivas para potenciar essas lutas. E, aí sim, poderão existir razões de discussão útil entre o que é melhor: um partido leninista, trotskista, stalinista na direção dessas lutas.

    Comentar por agostinho lisboa | 24 de Maio de 2012

    • Caro Agostinho, a frase circula pela internet assim. Com uma foto de Marx e uma data: 1867, a publicação d’O capital. Assim, como pode ver aqui. Este é o contexto. E chegou ao ponto de ser citado pela Izquierda Unida. E uma versão portuguesa está a circular nos fóruns de esquerda do facebook.

      Posto isto, permita-me duas réplicas ao seu comentário. Primeiro, o que há de menos marxista naquela frase é supor que ela é de Marx. Marx sempre foi muito claro em afirmar que era uma patetice falar acerca do futuro. Sempre falou do presente. Se, de algum modo, falou do futuro foi porque entreviu que o que estava a acontecer em Paris (crescimento da indústria, luta entre patrões e operários, etc.) se iria tornar “modelo” de toda a Europa. O presente (isto é, 1947-48) de Paris era o futuro da Europa toda.

      Em segundo lugar, reforço as minhas duvidas sobre o facto de Marx poder a vir dizer aquilo. Marx sempre foi crítico de um empirimo naïfe como o daquela frase. Basta ler o Introdução à crítica da economia política para ver o quanto o trabalho de Marx é corrigir estas descrições ligeiras da realidade económica. Nesse sentido, o fenómeno do endividamento dos trabalhadores teria compreendido através da sua insersão na dinâmica geral do capitalismo (na sua essencia) e não em si mesmo (na sua aparência).

      Comentar por Jose Ferreira | 24 de Maio de 2012

      • Obrigado pelos esclarecimentos do contexto. Quando referi que Marx poderia dizê-lo mas não quis com isso dizer que esse seria o veio estrutural do seu pensamento. O endividamento dos trabalhadores (classes médias incluídas) é uma consequência do capitalismo, como noutros níveis a alienação, o consumismo, etc, mas não a sua essência. Estamos de acordo que o capitalismo não deve a sua existência às práticas especulativas financeiras. Deve a sua existência à exploração e apropriação da mais-valia gerada pelos trabalhadores no processo produtivo (para ser breve).
        Continuarei a lê-lo com gosto.
        Abraço

        Comentar por agostinho lisboa | 25 de Maio de 2012

    • Caro Agostinho Lisboa

      Vejo que deixei passei por alto a sua segunda nota. Sem duvida, aqui o ataque ao trotskismo está descontextualizado. Mas basta olhar para o papel desempenhado ultimamente pela IV Internacional. No Chile, tiraram os comunistas das associações de estudantes e o movimento acabou. E veja este dossier que abriram sobre Cuba. Parece que inventaram uma ISO para definir os critério que tornam o país no socialista. Alan Wood ainda é um dos trotskistas que eu mais respeito, mas mesmo assim tenho razões de queixa. Aqui comento a sua péssima análise das eleições gregas. Já falei aqui de Portugal.

      Os trotskistas vivem para corrigir os outros; não para fazer nada da cabeça deles. Veja aqui e aqui mais um exemplo.

      Comentar por Jose Ferreira | 5 de Junho de 2012

  2. Marx simplesmente não disse a frase. O que ocorreu foi mais um caso de excessiva confiança nas informações que circulam na Internet. Neste sentido, veja-se http://elpais.com/diario/2009/02/22/espana/1235257219_850215.html.

    Comentar por Alexandre da Rocha | 5 de Junho de 2012

    • Exato! Afirmo isso na primeira frase do post. E, na palavra “falsa” coloquei esse link. Mas a coisa é mais grave: como digo no post e, ainda mais claramente na resposta ao comentário de Agostinho Lisboa, nada está mais longe do marxismo que não ver que essa frase não pode ser de Marx. Portanto, não posso concordar que foi apenas excessiva confiança nas informações que circulam na Internet. Foi falta de formação política! Pouco tem de marxista aquele que chega a supor que Marx poderia ter dito aquilo.

      Comentar por Jose Ferreira | 5 de Junho de 2012


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