Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Reconfiguração da disputa intra-elitista

Quando escrevi a análise de conjuntura em Maio deste ano, argumentei que os exportadores chegaram ao governo com apoio dos credores de Portugal, isto é, da banca franco-alemão através das pressões da CE, BCE e governo alemão. Afirmei também que essa aliança era bastante precária e que já se notavam colisões de interesses entre os credores e os (tidos como) criadores de riqueza: os exportadores. Ali também argumentei que a fração da elite que tinha comandado a política portuguesa, pelo menos desde os governos de Cavaco e Silva, estava em crise. Esta crise era dominada pelo desmoronar do sector da construção civil, por um lado, e, por outro, por em certo desnorte da banca que perdeu a sua maior bengala.

(Deixei também claro, e não me canso de repetir, que estes sectores se impuseram aos políticos porque eram aqueles mais capazes, em cada momento, de oferecer o que os políticos procuram: estabilidade. Isto, oferecer emprego e manter o crédito a circular a curto prazo para que o país viva na paz dos anjos e eles se reelejam. Claro que oferecem também luvas. Mas isso, a corrupção, não justifica mais que uma pequena parte da crise. A sua quase totalidade é justificada pela própria dinâmica da economia [ver aqui, aqui e aqui]).

O que não entendi foi que o sector bancário pudesse encontrar pontos de convergência com o sector exportador. Esses pontos de convergência resultam, como seria de esperar, da oposição aos credores externos. (É absurdo como o debate não leva em conta a qualidade de vida da população; somente a competitividade da economia. Ou seja, em vez da economia servir a sociedade, serve-se dela. De qualquer modo, eu mesmo não vejo outra alternativa sem romper com as causas das crises: a propriedade privada).

O programa de “ajustamento” da economia portuguesa tem uma receita clara. Ante o desabar do mercado interno, a economia deve voltar-se para as exportações. A crise dos mercados internos dos países do sul da Europa não deveria ser solucionada; para muitos não tinha solução. Seria necessário estimular a alternativa, isto é, economias voltadas para os mercados externos. Merkel dizia isto em Junho de 2010. Obviamente, esta alteração agradou os exportadores, desgostou os bancos e fez ruir a construção civil.

Certa ou errada, a imposição de Merkel/credores internacionais, assumida por Passos Coelho, é de difícil realização. Por três razões. Uma: a dimensão da mudança é enorme. Isso pode ver-se quando damos conta que, em 2009, dois em cada três trabalhadores produzia para o mercado interno. Duas: os principais mercados de exportação da economia portuguesa são Espanha, França e Alemanha, isto é, igualmente em crise exceto o último. Três: um aumento rápido das exportações implicaria um aumento rápido da competitividade da industria portuguesa. Isso implica uma redução comparativa (em relação à moeda dos destinos de exportação) do custo do trabalho. Tradicionalmente, isso fazia-se virtualmente: com a manipulação da taxa de cambio. Com a adoção do euro, exige-se fazê-lo realmente.

Ora, é em torno desta terceira dificuldade que os exportadores portugueses e os credores de Portugal se afastam. É também isto que aproxima os exportadores do sector bancário. Os custos unitários do trabalho podem ser reduzidos de dois modos: reduzindo salários ou reduzindo impostos (isto é, a taxa social única). Obviamente, os credores internacionais asseveram a inevitabilidade da primeira opção e a inflexibilidade do programa de ajustamento, como já o fez, recentemente, Christine Lagard. Já os empresários portugueses afirmam que custo do trabalho não são só salários (ver aqui uma resposta a Lagard).

É aqui que os exportadores se alinham com os empresários voltados para o mercado interno. Os segundo preferiam uma austeridade menos austera para manter os seus negócios. E, obviamente, os primeiros já estão com medo de ficar a pagar impostos sozinhos.

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1 de Junho de 2012 - Posted by | Economia, Portugal | , , ,

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