Fala Ferreira

Assim me saúdam os amigos de Guatemala.

Sobre questões de organização

Não foi por coincidência que me deparei com Observações metodológicas sobre a questão da organização de Gÿorgÿ Lukács. A linha de argumentação do marxista húngaro coincide com a minha preocupação mais recente. A saber: como as questões teóricas complexas decantam das vanguardas revolucionárias para as massas trabalhadoras? Sem dúvida, colocar a questão desta maneira é já definir um ponto de partida elitista. Não obstante, o ponto de vista democrático é naïfe. (Já aqui argumentei que, embora possam existir vários termos médios, como o “luxemburgismo” e o marxismo de Marx, são estas as questões que apartam o leninismo do anarquismo).

Estas questões derivam de uma reinterpretação que fiz da extrema-direita. Basta ver quem são os seus membros para entender que são trabalhadores; e não a elite económica. Aliás, basta pensar que são igualmente “extrema”: extrema-esquerda e extrema-direita são – cada vez mais creio nisso – (des)qualificativos que as elites dominantes colocam sobre as correntes políticas dominadas/operárias. Enfim, o socialismo e o fascismo têm a mesma base objetiva. Por isso não é de estranhar que se tenham aliado no inicio do século; aliança da qual Nicola Bombacci é o melhor exemplo.

Não obstante, hoje existe um imenso antagonismo atual entre a “extrema-esquerda” e a “extrema-direita”. (Uso, apenas desta vez, os qualificativos de “extrema-esquerda” e “extrema-direita”. Faço-o aqui porque expressa a distância entre as correntes políticas com mais força do que qualquer dos seus sinónimos. Mas sinto-me obrigado a repetir que trata-se, evidentemente, de um desqualificativo). O antagonismo é ideológico, isto é, deriva do modo radicalmente diferente de como os mesmos factos são percebidos. Obviamente, dessas duas formas de perceção resultam em dois programas de ação cuja incompatibilidade está aos olhos de toda a gente. Mas onde reside essa diferença da perceção?

A diferença prende-se com o foco do olhar: nas pessoas ou nas estruturas. As comparações dos políticos atuais com Salazar, feitas pelos fascistas, orientam-se pelos valores morais, como competência e honestidade. Elas manifestam uma pessoalização das críticas. Pelo contrário, o discurso socialista, sobretudo marxista, tende a colocar o foco nas estruturas. O problema nunca é o político corrupto; é sempre o modo como a política convida a corrupção e como a lei é incapaz de combater o corrupto. Como diria Marx, “a terra herda o herdeiro”. A má política chama a si os maus políticos. Por oposição, para os fascistas, são os maus políticos que fazem a política degenerar.

Frente a esta questão só podemos ser pessimistas. Basta olhar o modo como o debate político sobre a corrupção está colocado para ver que está afinado com o fascismo. (Continuo a ver nesta intervenção do Bruno Dias o modo correto, isto é, de esquerda, de colocar o problema da “corrupção”). Não seria de esperar outra coisa, na medida em que a perceção das estruturas, isto é, o ponto de vista socialista, exige tanto a mediação da teoria para a definição das causas dos problemas como o conhecimento empírico desses problemas. Ora isto é impossível para a maioria das pessoas. Tanto é que para muitos que se creem de esquerda, adotam um discurso que melhor cabia aos fascistas. Eis também a razão porque, como disse no primeiro parágrafo, sou radicalmente elitista.

Então, como chegar à Massa? É aqui que Lukács entra! Ele parte da relação leninista entre teoria e a prática, para afirmar 1) Que a teoria torna-se prática somente quando obriga a mudanças organizacionais (do partido e na relação do partido com os outros) para acomodar o ajustamento teórico. Nesse sentido, toda a teoria sem consequências organizacionais torna-se inoperante. (Lukács, comentando o fracasso da II Internacional, afirma que ela pôde tomar posições contraditórias porque as questões de organização foram postas fora de discussão)

2) Que as massas entram na disputa teórica na medida em que não podem deixar de participar na reorganização do movimento. É por esta via que eles se apropriam da teoria e a tornam revolucionária! (Vale lembrar, segundo Marx, uma teoria torna-se revolucionária quando se apropria das massas).

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3 de Junho de 2012 - Posted by | Ideologia | , ,

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